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Mitologia em Português

Mitologia em Português

05 de Janeiro, 2018

A origem das fadas

Se muitas das histórias de fantasia dos nossos dias tomam partido destas figuras, qual é mesmo a origem das fadas? Quem são elas? Quando ouvimos os seus nomes ficamos, automaticamente, com um conjunto muito específico de características em mente - criaturas pequenas, com asas, mágicas, que vivem nos bosques, etc. Mas de onde vêm essas ideias, como nasceram estas singulares criaturas?

As Fadas de Cottingley

Por estranho que nos pareça, as fadas não têm uma origem na literatura da Antiguidade, mas sim na Idade Média. De facto, de todas as obras gregas e latinas que nos chegaram, apenas o segundo livro das Núpcias de Filologia e Mercúrio parece fazer uma breve referência a elas, quando identifica como longaevi (i.e. com muita idade) os seres que viviam nas florestas, entre os quais se contavam os usuais faunos e ninfas, mas também outros, menos conhecidos, chamados "Fatui, Fatuae, Fantuae e Fanae". Nada nos é dito especificamente sobre estes últimos, com excepção de que todo esse grupo de criaturas vivia muito tempo e tinha alguns poderes especiais, como o de prever o futuro. Tendo em conta que Marciano Capela foi um autor do século V da nossa era - um dos últimos da grande Roma - o seu silêncio em relação ao tema é muito esclarecedor, sendo possível que se tratassem de criaturas da cultura popular, sobre a qual nenhuma outra obra nos informa directamente.

 

Nos séculos seguintes estas figuras parecem nascer e crescer progressivamente, mas sem que se saiba especificamente o que aconteceu. As suas características específicas vão sendo apresentadas e assimiladas por diversos autores - o facto destas criaturas serem "longaevi", de terem uma estatura indefinida mas indisputavelmente mais pequena que a dos humanos, etc - mas sem que alguma vez possamos apontar um momento totalmente preciso para a primeira referência concreta a uma fada composta pelas mesmas características que lhes damos hoje.

 

Quererá isto dizer que as fadas simplesmente apareceram na literatura da Idade Média "porque sim", sem que saibamos realmente como isso aconteceu? Mais ou menos... existem algumas teorias interessantes sobre o tema. Apenas para dar um breve exemplo, C. S. Lewis, na sua obra The Discarded Image, refere quatro possibilidades para a origem das fadas:

- Elas são uma espécie racional de um terceiro tipo, diferente dos anjos e dos homens;

- Elas são "anjos caídos", mas pertencentes a um grupo diferente do comandado por Lúcifer;

- Elas são uma classe muito particular de mortos;

- Elas são demónios.

 

Cada uma destas teorias tem muito que se lhe diga, mas todas elas assentam na ideia de que estas criaturas não apareceram, pura e simplesmente, na nossa cultura como brotantes de um vazio. A sua ideia-base, bem como a forma como as suas características se foram desenvolvendo, assenta num conjunto de crenças que até podemos associar a outras figuras anteriores, desde os deuses gregos e romanos até a figuras místicas e eventos mais associadas ao Cristianismo.

 

[Adicionado posteriormente:]

Recentemente, adquirimos um livro intitulado Les Fées du Moyen-Age, da autoria de L. Maury, que acrescenta alguma informação a esse tema, não só relativamente à origem das fadas, em si, mas também à de outras criaturas medievais, como os gnomos e os trolls.

As Fadas de Cottingley

Aparentemente, as fadas podem provir das fatae latinas. Se sabemos que as ideias pagãs, após a ascenção do Cristianismo, sobreviveram mais tempo nas pequenas povoações do campo do que nas grandes cidades, o que parece ter acontecido é que existiu um desenvolvimento paralelo (e pouco documentado) de algumas crenças. Assim, uma crença nas fatae - em termos de Destinos, Moirae, etc. - parece ter-se indo associando a alguns locais rurais específicos, e depois foi evoluindo através de um sincretismo de outras crenças antigas. Por exemplo, a sua magia e conhecimento do futuro poderá vir dos Destinos romanos; as suas danças, das que tinham lugar nos rituais de Baco; a sua longa idade, da dos Sátiros campestres; a sua pureza, da das sacerdotisas; o seu local de habitação, da antiga veneração de árvores, cavernas e cursos de água; etc.

 

O curioso desta possibilidade é que permite, aqui e ali, reencontrar vectores de ligação aos mitos da Antiguidade. Quando a Bela Adormecia é destinada, por uma fada malévola, a se picar numa roca de fiar, não se torna fácil ver nessa história uma alusão ao carácter fiandeiro e destinador das três Moiras dos Gregos, agora vistas como malévolas por influência do Cristianismo? Quando um cavaleiro medieval encontra a Senhora do Lago arturiana, não estariam os autores da história a pensar ainda nas Ninfas de outros tempos, que também ajudavam alguns heróis? E as asas destas criaturas, não poderão elas provir das de Eros/Cupido?

 

Face a esta argumentação, parece-nos justo, por fim, ver na origem das fadas uma amálgama de múltiplas crenças pré-cristãs, que ao longo dos séculos se foram cristalizando numa só figura de muitos atributos, tanto salvadora como destruidora (mediante quem a vê), e que parece ir mantendo funções dispersas que o Cristianismo tanto tentou eliminar e/ou sobrescrever com o culto dos santos.

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