Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Ao longo dos séculos poucas obras literárias terão sido tão discutidas como a Bíblia. Nada de mal haveria nisso, mas poucos são aqueles que a lêem nas línguas originais, e isso leva a um problema - como ter a certeza de que a tradução à nossa frente corresponde ao que dizia o original? Como brincadeira, fizémos uma pequena e imperfeita tradução do Cântico dos Cânticos 4:10, baseado no texto semi-original da Vulgata. Diz mais ou menos o seguinte:

 

Quão belas são tuas mamas, senhora minha esposa!
Mais belas são as tuas úberes [que] vinho,
E o odor de teus perfumes [está] acima de todas as especiarias.

 

A muitos poderá parecer estranho que comentários desta natureza surjam na Bíblia, mas bastará apontar que a Septuaginta contém, no primeiro e segundo versos da mesma sequência, a palavra "μαστοί" (mastoí), que essencialmente significa "os seios". É inegável que eles estejam no texto, mas como pode ser visto nesta página muitas das traduções fazem, em vez disso, referência a um "amor". A alteração até poderá ser defendida pelas mais diversas razões, mas é inquestionável que, pelo menos nesta situação em concreto, o original não diz o mesmo que a maior parte das traduções.

 

Este problema leva, por isso, a uma questão de suma importância - como argumentar "A Bíblia diz X" quando nem se tem a certeza de que essas palavras estão realmente no original? Não vos parece perigoso fazê-lo?

Autoria e outros dados (tags, etc)


8 comentários

Imagem de perfil

De P. P. a 29.05.2018 às 07:25

Imagem de perfil

De P. P. a 01.06.2018 às 21:57

De nada.
Eu é que agradeço a partilha.
Imagem de perfil

De Charneca em flor a 28.05.2018 às 22:44

Mais que saber as palavras exactas presentes na Bíblia, há que compreender o sentido do texto.
Imagem de perfil

De alguém a 01.06.2018 às 17:30

Obviamente que o sentido, em si, é importante, mas as palavras são-no muito mais. Dou-lhe um pequeno exemplo - certamente conhecerá o momento em que, na cruz, Jesus grita "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?". Alguns manuscritos muito antigos, em vez disso, dizem "Meu Poder, meu poder, porque me abandonaste?".

Sabemos, neste caso particular, que a segunda frase foi sendo abandonada, em favor da primeira, porque algumas religiões gnósticas estavam a usá-la para argumentar que Jesus Cristo era puramente homem, e que no momento da crucificação o espírito divino que o habitava se foi embora.

Para outro exemplo interessante pode ver o que escrevemos há uns tempos atrás: https://mitologia.blogs.sapo.pt/o-evangelho-secreto-de-marcos-tambem-208814 .
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.05.2018 às 16:47

Perigoso poderá não ser a palavra certa, mas o problema é sério dado o impacto do livro.
Imagem de perfil

De sofá.branco a 23.05.2018 às 11:40

Também por isso cria a religião tanta separação e conflito.
Imagem de perfil

De alguém a 25.05.2018 às 16:06

O problema não é tanto a religião, em si, mas a atitude das pessoas face à religião.

Comentar post



Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
Licença Creative Commons



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog