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Mitologia em Português

30 de Dezembro, 2020

"Elegíada", o texto mais triste do mundo?

Será Elegíada o texto mais triste do mundo? Certamente que esta pergunta não tem uma resposta fácil, até em virtude do facto da tristeza ser um critério bastante discutível e difícil de definir, mas quando há algumas semanas ouvimos falar de um texto que era categorizado por um crítico nacional como o mais triste de Portugal, ou o mais triste alguma vez composto em língua portuguesa, sabíamos que tinhamos de lhe dar uma olhadela. E foi o que fizemos, ao longo de mais de 400 páginas de um épico nacional que hoje é muito pouco lido. Conte-se a sua história.

Um dos textos mais tristes do mundo?

Viveu na segunda metade do século XVI um padre jesuíta que ficou conhecido por Pereira Brandão. Entre o pouco que sabemos da sua vida é conhecido que ele acompanhou o Rei Dom Sebastião à Batalha de Alcácer-Quibir. Sobreviveu ao grande desastre e, menos de 10 anos depois, escreveu um poema épico, a Elegíada, em que o herói é o próprio monarca D. Sebastião. Ou seja, escreveu provavelmente o único poema épico do mundo em que o herói não só não triunfa nos seus objectivos, como até acaba por morrer no campo de batalha. E desenganem-se aqueles que esperam, aqui, um poema de esperança para o futuro profetizado por Bandarra ou imortalizado nas lendas - o rei estava mesmo morto, não ia voltar, e a obra termina no ponto em que o reino de Portugal é informado desse assustador destino. Esse é um tom de tristeza que pauta repetidamente toda a obra, que até começa com os seguintes versos, bem exemplificativos do seu conteúdo geral:

Mortes, danos, castigos, mágoas canto,
Males que todo o mundo chora e sente,
Um nunca visto estrago, e o rouco pranto,
Nunca enxuto em portuguesa gente.
Armas, furor, e temeroso espanto,
Em que se abrasa a Líbia ardente,
Quando [D.] Sebastião passar queria
A restaurar o Rei da Barbaria.

 

Parece tão triste quanto interessante, não é? Ao contrário do épico escrito sobre Henrique de Borgonha, o tema desta Elegíada dificilmente poderia ser mais fascinante, ainda para mais se foi escrito por alguém que testemunhou os eventos que reporta na primeira pessoa. Contudo, se a obra até tem alguns momentos preciosos, o seu mérito poético é demasiado discutível. Mesmo naqueles instantes em que surge algo mais digno de nota, como o misterioso idoso que inspira o rei falando-lhe do glorioso passado de Portugal (seria ele Camões?), ou a viagem do monarca por Sintra, eles demasiado depressa se desvanecem... e isso é particularmente notável naquele que deveria ser o episódio da morte de Dom Sebastião, no penúltimo canto, que é tratado com uma ligeireza que não pôde deixar de nos fazer sentir algo como "O quê? Só isto? Morre o rei e é apenas isto que o poeta tem para nos apresentar?" Em suma, o seu tema até era bom, mas o poeta não foi capaz de o tratar da forma conveniente para um verdadeiro poema épico.

 

Agora, não sabemos se esta Elegíada é o texto mais triste do mundo. Ou sequer se é o texto poético mais triste alguma vez composto em Portugal, mas se for colocado no seu contexto original entende-se o porquê de já ter recebido essa designação. É um poema emblemático de um momento muito particular da história portuguesa, do grande desespero de um povo, mas isso não faz dele, ainda assim, um bom poema épico. Explica-se, sem muita dificuldade, que seja essa falta de mérito poético que tenha levado ao seu esquecimento nos nossos dias. E quem desejar lê-lo faça-o como nós, mais pela breve curiosidade do que pela esperança de nele encontrar algo capaz de rivalizar com os Lusíadas de Camões.

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