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Fotografia

Hoje, enquanto vinha da universidade para casa, encontrei um quadro próximo do lixo, à chuva. Trouxe-o para casa e ainda tentei salvar o que pude (vejam os maiores danos na parte superior). É um quadro com os bustos e cronologia dos Reis de Portugal, terminando (no topo) com as figuras de D. Fernando e D. Luiz I. Este quadro foi aparentemente impresso por António Joaquim Alves em 1878, ou seja, tem aproximadamente 141 anos.

Não sei se terá qualquer valor monetário, mas provavelmente tem valor histórico. E, ainda assim, alguém decidiu deitá-lo fora, à chuva, como se fosse algo sem qualquer valor. A sério, por favor, tenham cuidado com o que deitam fora!

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O mundo dividido no Tratado de Tordesilhas

Hoje, mais do que mitos e lendas, trazemos cá um pouco de cultura geral. O Tratado de Tordesilhas, como é que provável que os leitores se recordem dos seus tempos de escola, foi uma convenção celebrada entre Portugal e Espanha, segundo a qual os locais por descobrir pelo mundo fora se repartiriam entre os dois países, independentemente de qual dos dois o descobriu.

Mas, visto que foram certamente poucos aqueles que o leram, pensámos que podíamos revelar três pequenas curiosidades sobre o seu conteúdo:

 

Como bem se sabe, a principal divisória foi colocada 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Contudo, o tratado também dá algumas indicações adicionais sobre como deveriam ser traçados esses limites na prática, para que se pudesse apurar se um determinado local iria pertencer a Espanha ou a Portugal;

Também é estabelecido neste tratado uma espécie de período de carência, dizendo o que deveria acontecer aos territórios descobertos antes da sua entrada em vigor.

Mas, finalmente e talvez muito mais interessante, é o facto de nunca se propor uma divisão do globo em duas metades, como se somente Portugal e Espanha fossem merecedores de possuir tudo o que existe. O que é dito, isso sim, é que se um dos dois países encontrar um novo território, esse poderá vir a ser pertença do outro mediante a sua localização. Na prática, é uma espécie de pacto de não-agressão entre os territórios ibéricos, mas sem que seja estipulado o que deverá acontecer a potenciais descobertas feitas por outros países.

 

Se, na prática, a ideia por detrás do Tratado de Tordesilhas nos poderá parecer hoje um tanto absurda, poderá ter sido a melhor forma que os dois países encontraram para gerir aquele que poderia ser um conflito constante. Se, de um ponto de vista literário ou mitológico, este documento não tem muito interesse, o seu valor histórico é completamente inegável.

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Sapo fofinho

Há alguns dias fomos contactados por uma publicação nacional, que nos queria pôr uma questão curiosa - afinal de contas, porque é que os ciganos não gostam de sapos?

 

Nunca encontrámos qualquer mito ou lenda que justificasse esse temor. Porém, como evidenciado pela prática corrente em muitas lojas portuguesas, que usam um sapo de louça para afastar os ciganos, na verdade esta crença não passa por terem medo do animal, em si, mas de uma ideia que este lhes sugere. E, pergunte-se então, que ideia é essa?

Essencialmente, em alguns dialectos da língua romani a palavra beng significa tanto sapo como diabo. Por isso, para eles olhar para a figura de um sapo poderá ser equacionado a evocar o diabo, que, por sua vez, empresta a sua protecção a um determinado local; e se essa figura não tem na cultura cigana o mesmo simbolismo que na cristã, não deixa de ser temida.

 

Trata-se, portanto, de uma inferência sapo -> beng -> diabo, propiciando o afastamento dos ciganos tal como aconteceria no nosso caso se, por exemplo, alguém colocasse à porta da sua loja uma imagem que consideramos particularmente ofensiva ou chocante.

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O Mármore Pário

Na imagem acima pode ser vista uma reprodução do texto da Crónica de Paros, um mármore que foi reencontrado no século XVII e que apresenta uma cronologia dos tempos gregos, aproximadamente desde o ano 1581 a.C., em que Cécrops se tornou o primeiro rei de Atenas, até ao ano 299 a.C., em que Euctemón foi arconte em Atenas. É uma crónica curiosíssima, na medida que funde eventos míticos (o dilúvio de Deucalião, o reinado de Teseu, a vida de Héracles, etc.), com aqueles que tendemos a considerar como históricos, como as conquistas de Alexandre Magno. Essa necessidade de contar o tempo, a altura em que tiveram lugar alguns dos eventos do passado, levanta uma questão - afinal, como era a contagem do tempo feita na Antiguidade?

 

Partindo do exemplo da Crónica de Paros, as entradas mais antigas mencionam quem foi rei em Atenas na altura em que um dado acontecimento teve lugar. Depois, por volta da entrada relativa ao ano de 683 a.C., é dito que começou a ser praticado um arcontado, e então as datas seguintes vão sendo associadas à pessoa que num dado ano era arconte em Atenas. O que distingue os dois períodos? Os eventos anteriores a esse ano de 683 a.C. podem ser considerados míticos, enquanto que os mais recentes já têm um fundamento histórico.

 

Poderá parecer simples, mas esta não era a única opção. No tempo dos Gregos também era feita uma contagem do tempo associando eventos aos Jogos Olímpicos, algo como "no terceiro ano da vigésima-segunda olimpíada..." E, de facto, nas fontes que temos a contagem é feita recorrendo-se tanto aos arcontes como aos períodos dos Jogos Olímpicos.

 

Salte-se algum tempo e considere-se, agora, um segundo exemplo, o dos Romanos. Como é que eles contavam os seus períodos de tempo? Essencialmente, tendiam a recorrer a um contagem ad urbe condita, ou seja, algo como "passados X anos da fundação da cidade [de Roma]", com esse evento crucial a tomar lugar por volta de 753 a.C. Mas, tal como no caso dos Gregos, esta não era a única opção - muitas vezes a datação também era feita recorrendo-se aos cônsules, de que a obra de Júlio Obsequente é um bom exemplo, ou até aos Imperadores.

 

Depois do tempo dos Romanos começou, essencialmente, a ser usada uma cronologia cristã, que apesar de ter sido alterada ao longo dos tempos já ultrapassa o nosso tema de hoje. Resta, no entanto, uma questão problemática - como é que os Gregos contavam o tempo antes dos reis de Atenas e dos Jogos Olímpicos? Ou, se preferirmos os Romanos, como é que eles o faziam antes da datação AUC? Não sabemos, mas se alguém tiver alguma ideia por favor deixe-a nos comentários.

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Modelo Geocêntrico vs Modelo Heliocêntrico

Como todos nós aprendemos nos tempos de escola, existiu um período de tempo em que as pessoas pensavam que a Terra estava no centro do Universo. Depois apareceu Copérnico, que parece ter sido o primeiro a postular a ideia de que, afinal de contas, no centro do nosso Universo estava era o Sol. Esta comparação dos dois modelos pode ser vista na imagem acima, mas deixa-nos uma questão - afinal de contas, como é que Nicolau Copérnico descobriu isto?

 

A sua obra mais famosa, Da Revolução das Esferas Celestes, não é um texto simples. De facto, em busca de uma resposta à questão anterior encontrámos algumas referências a ela como "o livro que ninguém leu", possivelmente pela complexidade matemática que apresenta. Mas, felizmente para todos nós, uns anos antes o mesmo autor escreveu também um texto conhecido como Pequeno Comentário, em que apresenta a sua teoria de uma forma muito breve e simples.

 

E então, afinal de contas, como chegou Copérnico à sua teoria heliocêntrica? Simplificadamente, pegou nas medições dos muitos autores que o antecediam, como Cláudio Ptolomeu, e acabou por se aperceber de um problema - para esses autores, o movimento das esferas celestes não era uniforme. Em vez disso, os planetas moviam-se de uma forma muito inconsistente, como na imagem seguinte:

Geocentrismo

Em seguida, ele apercebeu-se que, em alternativa, se o Sol estivesse no centro do Universo todo este complexo modelo poderia ser muito simplificado - todas as medições que tinham sido feitas antes continuariam a bater certo, mas com um movimento das esferas celestes muito mais consistente e sucinto, em que todos os planetas se moviam de uma forma exclusivamente circular em torno de um mesmo centro, como pode ser visto na imagem abaixo.

Sistema Solar

Se esta explicação até poderá parecer simples, o que Nicolau Copérnico fez no seu livro Da Revolução das Esferas Celestes foi provar, matematicamente, que existia uma alternativa ao modelo dos Antigos, e que esta permita simplificar bastante o modelo que até então era seguido. Mais do que postular que cada planeta tinha o seu movimento individual, como antes, o seu modelo permitia compreender que todos os planetas tinham um mesmo movimento circular. Infelizmente, essa possibilidade também implicava vir a dizer que a Terra tinha de perder o seu lugar cimeiro no centro do Universo, algo que a Igreja de então não levou muito bem, condenando injustamente a teoria deste autor...

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É provável que tenham sido poucos aqueles que leram o Mahabharata nos nossos dias, até pela proibitiva extensão da obra, mas esse épico em sânscrito tem diversos momentos que dão muito que pensar. Aqui fica uma breve sequência que discutíamos há alguns dias:

 

  • Quem é realmente feliz?

Aquele que tem poucos meios mas nenhumas dívidas; esse é um homem verdadeiramente feliz.

  • Qual é a coisa mais espantosa?

Dia após dia e hora após hora as pessoas morrem e os corpos são levados, mas os espectadores nunca se parecem aperceber que também eles irão morrer algum dia, e parecem pensar que irão viver para sempre. Esta é a coisa mais espantosa do mundo.

 

Momentos como estes, que pouco ficam até a dever à Filosofia dos Gregos, repetem-se uma e outra vez nesta obra. Claro que não é um épico simples, que possamos simplesmente abrir e ler como quem lê um ténue romance, mas é, indisputavelmente, uma obra cujos infindáveis momentos filosóficos nos deixam, uma e outra vez, a pensar. E, neste nosso mundo de hoje, quantos mais momentos de reflexão nos faria bem acrescentar aos nossos dias?!

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Artur e a espada

Há alguns dias foi cá deixada esta pergunta - "[Será que] o Rei Artur existiu mesmo?"

É uma boa questão, mas a grande dificuldade em responder a ela passa por definir aquilo que se considera uma existência do Rei Artur. Por exemplo, um episódio como o da espada presa numa pedra, mostrado na imagem acima numa versão da Disney, apesar de ser muito famoso dificilmente terá sido real. Se removermos esse episódio, certamente fictício, da vida do herói, abre-se a possibilidade de que outros também possam ter sido mera ficção, o que, por sua vez, nos transporta para uma questão adicional - se o Rei Artur existiu, o que podemos verdadeiramente saber sobre ele?

 

É esse o grande cerne da questão. É possível que um monarca chamado Artur até tenha existido, num dado momento da história da Grã-Bretanha, mas não temos forma de distinguir os seus feitos reais daqueles que foram tornados lendários.

Para dar um exemplo concreto, na Vida de Merlim, de Geoffrey de Monmouth (ou, se preferirem, Godofredo de Monmouth), é dito que Uther fugiu para a Grã-Bretanha quando "Constante", supostamente seu irmão, foi traído (i.e. Constante II, ou seja, por volta de 411 d.C.). Sabendo que este Uther é o pai de Artur, isso permite-nos colocar a vida do herói que procuramos no século V d.C., mas somos rapidamente levados para elementos lendários quando é acrescentado que foi ele que derrotou o Procurador Lúcio Hibério (ou Tibério), uma figura quase certamente fictícia. Ou seja, até num mero punhado de linhas de um mesmo documento a potencial realidade e a ficção por detrás da figura de Artur fundem-se numa só, o que torna bastante difícil traçar onde acaba uma e começa a outra; de facto, o problema até se complica mais se tivermos em conta que o mesmo autor, na sua História dos Reis da Bretanha, também diz que Artur abandonou o trono, por ter sido ferido mortalmente em combate, em 542 d.C. - cerca de 130 anos depois da fuga do seu pai para a Grã-Bretanha, o que dá uma idade prodigiosa a pelo menos um deles!

 

Por isso, será que o Rei Artur existiu mesmo? É possível que sim, mas face aos dados que temos nos nossos dias é-nos difícil reconhecer onde acaba uma possível figura histórica e onde começa a sua lenda. O Artur lendário pode ser encontrado nas mais diversas histórias da Idade Média, mas a figura potencialmente real por detrás dele parece estar, hoje, irremediavelmente perdida.

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