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Quando imaginamos a figura de uma bruxa, uma das características que mais facilmente lhe associamos é o facto de estas figuras esvoaçarem numa vassoura. Porém, se pensarmos um pouco na questão, acabamos por notar que essa relação é estranha - porquê uma vassoura e não um ramo de uma árvore, ou até uma carroça encantada?

 

De uma forma indirecta, o Malleus Maleficarum dá-nos a resposta, quando aponta que, seguindo as instruções do diabo, as bruxas produziam um unguento feito dos membros de crianças que matavam antes do baptismo. Depois, aplicando essa produção numa cadeira ou vassoura, davam-lhe poderes mágicos. Supostamente, entre esses poderes contar-se-ia a capacidade de voar.

 

Mas, voltando à questão original, porquê uma vassoura (ou uma cadeira)? Recorde-se que, como a própria obra mencionada acima dá bem a entender, as bruxas estavam a ser perseguidas, pelo que lhes convinha passar despercebidas. Não poderiam, como nos tempos de Medeia, continuar a viajar num carro puxado por dragões, ou algo em igualmente exuberante. Mas, como qualquer outra mulher, certamente que teriam em casa uma vassoura ou uma cadeira, bem como outros objectos naturais ao quotidiano da época e que passariam perfeitamente despercebidos. Não pretendemos, evidentemente, argumentar que essas bruxas existiram, mas sim que a opção por uma vassoura teria um fundo lógico e fácil de justificar no contexto da Idade Média, sendo provável que a nossa ideia de bruxa tenha, por vias nem sempre muito claras, provindo desses tempos.

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Na sua história Dois Irmãos, Giambattista Basile apresenta-nos a figura de um pai moribundo que, escassos momentos antes da morte, deixa um conjunto de conselhos aos seus filhos. Não sabemos até que ponto estes ainda virão dos tempos da Antiguidade (várias das suas histórias têm, pelo menos, uma inspiração inegavelmente latina), mas pela sua simplicidade e eterna actualidade alguns deles merecem aqui ser relembrados:

 

  • "Primeiro, e acima de tudo, temam os céus, porque tudo vem de lá e se perderem o vosso caminho irão acabar mal";
  • "Poupem, quando têm algo para poupar, porque aquele que poupa ganha";
  • "Não falem demasiado, porque apesar da língua não ter ossos pode quebrar um par de costas";
  • "Contentem-se com pouco, porque feijões que duram são melhores do que bolos que rapidamente se esgotam";
  • "Associem-se àqueles que são melhores que vocês e ajudem-nos naquilo que possam - digam-me com quem andam e dir-vos-ei que tipo de pessoas vocês são";
  • "Pensem e depois ajam, porque é má ideia fechar o estábulo depois do gado ter saído";
  • "Fujam das disputas e das querelas, não pisem todas as pedras, porque aquele que salta demasiadas barreiras acaba por ficar com uma presa nas suas costas";
  • "Não tenham orgulho em demasia, porque precisam de mais do que de uma toalha branca para pôr uma mesa";
  • "Afastem-se do rico que se tornou pobre e do pobre que subiu na vida, do pobre desesperado, da mulher invejosa, daquele que adia tudo, [entre tantos outros]";
  • "Façam um esforço para perceber que aquele que tem um objectivo tem um lugar no mundo e aquele que tem senso na sua cabeça pode até sobreviver numa floresta".

 

Estes conselhos são hoje tão actuais como no tempo daquele que os pôs por escrito, mas a humanidade tende a esquecê-los, uma e outra vez. Demasiadas vezes achamos que sabemos melhor, que o nosso caso particular será bem diferente, que a sabedoria daqueles que vieram antes de nós já há muito que está ultrapassada. Mas, infelizmente, tendemos a olvidar que aquele que não aprende com os seus erros está condenado a repeti-los...

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Poderíamos responder a esta pergunta com os mais diversos argumentos, mas desta vez deixamos aqui uma citação de Stephen Hawking, na sua Breve História do Tempo, com tradução e adaptação da nossa autoria:

 

Por volta de 340 a.C. o filósofo grego Aristóteles, no seu livro Sobre os Céus, foi capaz de apresentar dois bons argumentos para se acreditar que a Terra era uma esfera redonda, em detrimento de um prato raso.

Primeiro, notou que os eclipses da lua eram causados pela Terra se interpor entre o sol e a lua. A sombra de Terra na lua era sempre redonda, o que apenas seria verdade se a Terra fosse esférica. Se a Terra fosse um disco raso, a sombra alongaria e seria elíptica, a não ser que o eclipse ocorresse sempre numa altura em que sol estivesse directamente no centro do disco.

Segundo, os Gregos sabiam, pelas suas viagens, que a Estrela do Norte aparecia mais baixa no céu quando vista no sul do que nas regiões a norte. (...) Da diferença na posição aparente da Estrela do Norte no Egipto e na Grécia, Aristóteles até mencionou que a distância em redor da Terra seria de 400.000 estádios.

Os Gregos até tinham um terceiro argumento em favor da Terra ser redonda - porque outra razão veríamos primeiro as velas de um navio no horizonte e só mais tarde o seu casco?

 

Também Plínio o Velho diz, no primeiro livro da sua famosa obra enciclopédica, que a Terra era redonda. Poderão ter existido algumas excepções, claro está, mas de uma forma geral os autores gregos e latinos de maior importância nunca parecem argumentar que a Terra era plana... mas, então, de onde vem essa ideia? É mais tardia, só surgindo já na Idade Média, por influência de autores que nem sempre é fácil precisar.

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Ultimamente vários visitantes têm procurado por cá informações sobre a aparência física de Aquiles. A questão provavelmente virá de uma série da BBC, "Troy: Fall of a City", em que o herói é representado com pele escura. Mas será que ele tinha mesmo essa ascendência africana, ou era branco e loiro, como no filme "Troy"?

João Tzetzes, no século XII, incluiu nos seus trabalhos [dos quais já aqui publicámos uma tradução] a descrição de algumas das figuras mais importantes dos épicos homéricos. Entre eles encontra-se, naturalmente, Aquiles, em relação a quem é dito que era alto, branco e de cabelos loiros. Momentos depois, sobre Pátroclo é dito que este também tinha cabelos loiros, mas pele avermelhada (provavelmente por passar menos tempo abrigado do sol), dificultando que algum dos dois fosse africano.

 

Mas estava João Tzetzes correcto? Que fontes utilizou para obter essa informação? Nem sempre é fácil sabê-lo, até pela existência de discrepâncias em várias das suas fontes, mas é inegável que o primeiro livro da Ilíada define o cabelo do herói como "ξανθή / xanthē", que pode ser traduzido como loiro. Mas se também essa prova não fosse suficiente, o herói é frequentemente representado em mosaicos com uma tez inegavelmente branca; em relação a vasos, no entanto, o caso não é tão simples, já que até a pele do etíope Mémnon por vezes se confunde com a de todas as figuras europeias.

 

Assim se poderá concluir que o Aquiles homérico tinha cabelos loiros, sendo também quase certamente branco. Por essa razão, o herói, tal como é representado na série da BBC, não corresponde à figura imaginada por Homero, mas devemos relembrar que não tem de o fazer. A cor da pele do herói, seja ela qual tenha sido, é muito menos importante do que as suas aventuras.

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No texto medieval Culhwch and Olwen juntam-se ao herói um conjunto de figuras dignas de nota. Assim, Culhwch recebe a ajuda do famoso Rei Artur, mas também dos seguintes heróis, todos eles muito menos conhecidos:

 

  • Gwrhyr, capaz de falar com pássaros e animais, bem como transformar-se nos mesmos.
  • Mewn, com o poder de tornar invisíveis todos os companheiros.
  • Morvran, que não era atacado pelos adversários devido à sua fealdade.
  • Sandde Bryd, que não era atacado pelos adversários devido à sua beleza.
  • Sgilti Yscawndroed, com a capacidade de correr sobre os ramos das árvores e sobre a relva sem os pisar.
  • Drem, senhor de umas capacidades visuais incríveis.
  • Gwadyn Ossol, para quem a maior montanha era pouco mais do que uma planície.
  • Sol, que aguentava ficar o dia inteiro num só pé.
  • Gwadyn Odyeith, lançava fagulhas dos pés.
  • Gwevyl, que conseguia cobrir-se totalmente com os lábios quando estava triste.
  • Ychdryt Varyvdraws, com uma barba extensível.
  • Yskyrdaw e Yseudydd, rápidos como o pensamento.
  • Klust, que mesmo enterrado conseguia ouvir uma formiga a sair da sua toca a mais de 80 Km de distância.
  • Gwiawn, conseguia remover um grão de areia do olho de uma mosca com um só golpe.
  • Ol, com o dom de conseguir seguir o rasto de porcos que tinham desaparecido sete anos antes de ter nascido.

 

Por muito curiosos que todos estes invulgares poderes nos possam parecer, a associação de diversos heróis, cada um deles com capacidades especiais pouco comuns, não é uma novidade dos nossos dias. Já na Antiguidade Jasão tinha nos seus Argonautas um conjunto de figuras dispostas a seguirem-no na sua difícil aventura, e ideias como essas continuariam a repetir-se ao longo dos séculos, através de exemplos famosos como os Cavaleiros da Távola Redonda. Mas será que conhecem outros exemplos como os agora mostrados em Vingadores: Guerra do Infinito?

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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