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Na Edda Poética, de que aqui falámos há alguns dias, surgem os seguintes versos:

 

A árvore Yggdrasil

É a melhor das árvores.

Skithblathnir é o melhor navio,

Odin o melhor deus,

Sleipnir o melhor cavalo,

Bifrost a melhor ponte,

Bragi o melhor poeta,

Habrok o melhor falcão,

Garm o melhor cão.

 

A existência de uma lista desta natureza, de valor canónico, levanta questões. Se faz todo o sentido que a gigantesca árvore seja a melhor do seu reino, que um navio pertencente aos deuses seja fantástico, que um cavalo de oito patas tenha especial valor, ou que o deus da poesia seja o melhor na sua arte, como escolher o melhor deus, a melhor ponte, ou o melhor de dois outros animais? Que critérios terão existido? Serão eles objectivos ou, como no caso de Habrok (em relação ao qual quase nada sabemos), dever-se-ão somente a tradições já há muito esquecidas? Fica a questão - como definir "os melhores" em alguma coisa?

 

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Há umas semanas atrás celebrou-se mais um aniversário da chegada de Vasco da Gama à Índia. Mas, realisticamente, como podemos ter a certeza de que o navegador chegou mesmo a Calecute a 17 de Maio de 1498? Ou, de uma forma muito mais geral, como podemos nós ter a certeza de que qualquer cronologia do passado está mesmo correcta?

 

Muitos foram os autores que ao longo dos séculos se dedicaram a esse problema, chegando a opiniões mais ou menos lógicas. Existem, por exemplo, autores que argumentam que a Antiguidade nunca existiu, tendo sido "falsificada" durante a Idade Média; outros dizem que nada existiu antes do nosso nascimento, sendo todo o conhecimento uma espécie de ilusão. Seria interessante que fossemos escrever sobre isso, mas por agora foquemo-nos numa obra pouco conhecida, The Chronology of Ancient Kingdoms Amended, da autoria de Isaac Newton, a mesma figura muito mais conhecida pelas suas conquistas na área da Física.

 

Então, nesta obra o autor argumenta que existiu um erro nas cronologias da Antiguidade. Ao longo de vários capítulos percorre diversas civilizações e diz-nos, afinal de contas, como os eventos tomaram lugar, explicando, por exemplo, que terá existido um erro na contagem dos anos que cada reinado teve. Seguindo uma lógica que nem sempre é muito fiável, numa prosa enfadonha e que poucos terão interesse em ler, como que revela a verdade dos acontecimentos, humanizando a mitologia dos Gregos e dos Romanos. Claro que a ideia não era nova - já vinha até dos tempos da Antiguidade! - mas é curioso que um cientista tão eminente se tenha focado numa tarefa como esta, mesmo que a obra só tenha sido publicada após a sua morte.

 

É, então, a cronologia de Newton, que se propaga até à morte de Alexandre Magno, fiável? Certamente que não, não é sequer necessário grande conhecimento histórico para encontrar múltiplos problemas nas ideias aqui defendidas, mas pelo menos apresenta uma cronologia que faz algum sentido, do ponto de vista teórico. E, se não sabemos até que ponto Vasco da Gama terá mesmo chegado à Índia numa determinada data, pelo menos uma certeza podemos ter - foi após a sua partida de Lisboa, por muito que autores como Fomenko queiram tentar discordar!

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Ao longo dos séculos poucas obras literárias terão sido tão discutidas como a Bíblia. Nada de mal haveria nisso, mas poucos são aqueles que a lêem nas línguas originais, e isso leva a um problema - como ter a certeza de que a tradução à nossa frente corresponde ao que dizia o original? Como brincadeira, fizémos uma pequena e imperfeita tradução do Cântico dos Cânticos 4:10, baseado no texto semi-original da Vulgata. Diz mais ou menos o seguinte:

 

Quão belas são tuas mamas, senhora minha esposa!
Mais belas são as tuas úberes [que] vinho,
E o odor de teus perfumes [está] acima de todas as especiarias.

 

A muitos poderá parecer estranho que comentários desta natureza surjam na Bíblia, mas bastará apontar que a Septuaginta contém, no primeiro e segundo versos da mesma sequência, a palavra "μαστοί" (mastoí), que essencialmente significa "os seios". É inegável que eles estejam no texto, mas como pode ser visto nesta página muitas das traduções fazem, em vez disso, referência a um "amor". A alteração até poderá ser defendida pelas mais diversas razões, mas é inquestionável que, pelo menos nesta situação em concreto, o original não diz o mesmo que a maior parte das traduções.

 

Este problema leva, por isso, a uma questão de suma importância - como argumentar "A Bíblia diz X" quando nem se tem a certeza de que essas palavras estão realmente no original? Não vos parece perigoso fazê-lo?

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Será que já ouviram falar de Joana, uma mulher que supostamente subiu ao trono papal?

Conta-nos a sua história que Joana se disfarçou de homem e se juntou a um mosteiro. Foi aprendendo cada vez mais, chegando a fama da sua sabedoria a tornar-se tão grande que acabou por ir subindo na escada da igreja e acabou por chegar a papa. Contudo, acabou por engravidar de um amado e teve o seu filho durante uma procissão na própria cidade de Roma. Se morreu durante esse nascimento, se foi depois morta pelos fiéis, ou se foi deposta e levada para um convento, as diversas fontes parecem discordar em relação a esse ponto.

 

Mas... terá esta história acontecido mesmo? A maior parte dos estudiosos do tema dizem que não, mas... porque existe uma carta de tarot chamada "a papisa"? Porque existe em Roma uma rua evitada durante cortejos papais, supostamente o local em que esta papisa deu à luz? Porque são diversas as fontes que afirmam ter visto, na galeria onde eram guardados os bustos dos vários papas, uma figura claramente feminina? Porque terá escrito um famoso autor (cremos que Erasmo, mas a memória poderá estar a trair-nos) que viu em Roma uma estátua desta papisa com o seu filho nos braços? E também, porque existe no Vaticano uma cadeira com um buraco, supostamente desenhada para verificar os genitais daqueles que ascedem ao trono papal? A resposta a todas estas questões, deixamo-la aos leitores - fica o desafio!

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Após o seu proémio, a Teogonia de Hesíodo começa com uma frase emblemática, "Primeiro nasceu o Caos", uma espécie de divindade da qual depois irá, progessivamente, nascer tudo aquilo que existe. E, considerado puramente assim, num vazio cultural, poderá parecer-nos uma criação que tem uma certa lógica... isto, até considerarmos o mesmo problema que, segundo reza a história, levou Epicuro a dedicar-se à filosofia - de onde nasceu esse Caos? O poeta grego nunca responde à questão, mas pelos versos que se lhe seguem compreendemos que terá de ter nascido de alguém, de alguma coisa, de algum lado. Mas de onde? De um nada tão grande que nem tinha um nome? A ideia de que somente já existia, desde o início dos tempos, não faz sentido, pelo facto de nos ser dito que ele "nasceu". Por isso, fica a questão!

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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