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Num episódio recente dos Simpsons, a trama introduziu um (ficcional) Santo Inácio Castellaneta. Supostamente vivendo em 250 d.C., recusou-se a abandonar a fé cristã e, como tal, os romanos cortaram-lhe a cabeça, os braços, as pernas e os dedos. Depois, atiraram-lhe flechas feitas de cobras congeladas e retiraram-lhe os olhos, cobrindo-lhe as respectivas cavidades com pistachios cobertos de chocolate - mas o santo continuou a recusar-se a abandonar a fé cristã. Então, finalmente, pareceram cozer os seus ossos em vinho de cereja. Depois, esse martírio levou a uma dada tradição na cidade de Springfield.

Um falso santo

A breve sequência pode ser vista carregando na imagem acima, mas o que ela tem de particularmente especial é o facto de representar um falso martírio com contornos que até poderiam ser verdadeiros. Tem lugar no século III d.C., apresenta uma figura cristã disposta a defender a sua fé pessoal contra todas as torturas, e mesmo após a sua morte a memória dos eventos pelos quais passou ainda perdura. Na verdade, se tivessemos lido este relato num livro, dificilmente duvidaríamos da sua veracidade. O que levanta uma questão - será que coisas como estas realmente aconteceram aos mártires cristãos?

 

Entre os muitos mártires dos primeiros séculos da nossa era contam-se algumas histórias absolutamente incríveis. Desde santas cujos seios foram cortados e cozinhados, até figuras religiosas cuja cabeça decepada quase nos faz sorrir face à constelação de tantas outras torturas por que passaram, não podemos deixar de pensar se não existiria um carácter muito sádico nos Romanos. Só isso permitira justificar as tamanhas torturas a que, supostamente, sujeitaram os Cristãos. Mas, repita-se, será que esses relatos são mesmo verdade? A história é frequentemente escrita pelos vencedores, e... por isso, não sabemos, nem temos forma de saber, até que ponto os Romanos infligiam mesmo nos Cristãos aquelas torturas de que muito ouvimos falar, até porque nada nos códigos legais de então previa tais abusos para com os criminosos. É, então, uma questão que tem mesmo de permanecer em aberto...

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Maria e o Anjo

Um dos grandes mistérios de Bíblia, tal como a temos nos nossos dias, é a forma como Maria, mãe de Jesus, engravidou e deu à luz mantendo-se virgem. Claro que existem, ao longo dos séculos (e até nos nossos dias), outros exemplos de mulheres que engravidaram ainda virgens, mas se a cesariana já existia nos inícios da nossa era (Solino diz-nos que o nome foi popularizado por César ter nascido através dessa técnica), nada no texto bíblico nos diz que foi assim que o filho nasceu. O que nos leva, por isso, a uma questão intrigante - como foi Jesus concebido, e como foi possível que ele nascesse sendo mantida a virgindade de Maria?

 

A resposta que um padre vulgarmente nos dará é que "foi milagre". Sim, a um deus omnipotente tudo seria possível, até a manutenção da virgindade de uma mulher após um nascimento, mas essa pseudo-resposta é também muito pouco satisfatória, até porque se abriria a caricata possibilidade de se poder dar igual resposta a toda e qualquer questão bíblica.

Em alternativa, ao longo dos séculos foram sugeridas alternativas. A mais interessante delas, e aquela que trazemos aqui hoje, diz que Maria engravidou pela orelha, e que o próprio filho nasceu, também ele, pela mesma orelha da mãe. Não fazemos qualquer ideia dos potenciais fundamentos biológicos necessários para tal, mas a ideia desta estranha concepção já aparecia em autores como Efrém da Síria (século IV), numa dada altura até apareceu representada na arte, e o nascimento de Jesus de forma semelhante ocorre, pelo menos, num texto cátaro (i.e. da Idade Média).

 

Claro que esta é uma resposta muito estranha, mas parte do cumprimento de uma pseudo-profecia presente no Antigo Testamento. É, por isso, uma possibilidade como qualquer outra, rementendo-nos, como é muito frequente nestes casos, para o reino exclusivo da fé...

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Salomão e a Rainha de Sabá

Poucas histórias parecem fascinar tanto a humanidade como a do destino final da Arca da Aliança. A sua redescoberta poderia provar a veracidade dos textos bíblicos, mas pouco se sabe da sua localização após a perda do Primeiro Templo de Jerusalém, o mesmo que foi eregido pelo Rei Salomão. Existem, aqui e ali, uma e outra hipótese, mas a que apresentamos hoje é intrigante.

 

Segundo o Kebra Nagast, um épico etíope que poderá datar do século XIV (o texto diz tratar-se de uma suposta tradução do copta para o árabe para a língua local), quando o Rei Salomão e a Rainha de Sabá se encontraram em Jerusalém - como diz o Antigo Testamento - aconteceu também algo que o texto bíblico não preserva - a rainha, aqui chamada Makeda, engravidou e teve um filho, a que viria a dar o nome de Menelik. Isso aconteceu porque, entre outras razões, Salomão queria engravidar o maior número possível de mulheres, de forma a propagar a crença no deus único (e não estamos a brincar, é mesmo isso que o texto afirma).

Alguns anos depois, Menelik foi a Jerusalém conhecer o pai. Quando voltou à Etiópia trouxe consigo a Arca da Aliança. Não se tratou de um roubo (!), o texto deixa claro que a Arca apenas foi levada por vontade divina, em parte devido à piedade do jovem e em parte porque Salomão andava a transgredir as regras que Deus lhe tinha imposto.

 

Esta poderia tratar-se de uma história lendária como muitas outras, mas a Igreja de Santa Maria de Sião, na cidade etíope de Axum, supostamente ainda tem no seu interior a Arca da Aliança, a mesma que Menelik trouxe do reino de Salomão. Porém, antes que se metam num avião para a re-encontrar, convém frisar que o local não está aberto ao público, nem é possível ver o tão famoso ítem. É possível que Edward Ullendorff a tenha visto durante a Segunda Guerra Mundial e afirmado que é uma cópia sem muito valor, como detalha este artigo, mas pouco mais sabemos sobre ela. É, por isso, uma possibilidade, mas também um beco sem saída.

 

Se existem várias outras histórias apócrifas que unem em laços amorosos a Rainha de Sabá e o Rei Salomão, chegando ao ponto de existirem até livros e filmes sobre o tema, esta parece ser uma das mais antigas referências a um potencial filho de ambos. Mas, se esse é o episódio central e fulcral do Kebra Nagast, esta obra também tem menções a vários outros mitos cristãos, desde a criação do Homem no Paraíso até às muitas sequências do Antigo Testamento que previam a vinda de um Messias (e que o texto descrimina de uma forma inesperadamente directa). Tem alguns momentos puramente belos (como as frases de Salomão sobre a natureza do conhecimento humano), mas, talvez mais que tudo, é notável pela forma como re-escreve e adapta alguns mitos bíblicos a um contexto africano.

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Um poeta da Antiguidade

As fontes literárias que temos referem que Vilgardo de Ravena foi um dos primeiros heréticos medievais. Porém, o que o torna digno de nota é mesmo a forma como essa sua heresia nasceu - as fontes dizem que ele se aplicou tanto nos estudos literários que, numa dada altura, lhe apareceram durante a noite os espíritos de Virgílio, Horácio e Juvenal. Estes agradeceram-lhe o estudo intenso, antes de lhe asseguraram que também ele iria partilhar da mesma glória literária que eles tinham. Isto levou-o a uma curiosa heresia, em que defendia que as palavras "dos poetas", numa natural referência aos autores latinos da Antiguidade, eram sempre dignas de serem acreditadas.

 

Infelizmente, sabemos pouco mais sobre este Vilgardo de Ravena. Seria interessante saber como essa sua crença se intersectava com os ensinamentos da religião cristã, mas essa informação parece ter sido perdida ao longo dos séculos, até porque não temos conhecimento de ele ter composto qualquer obra literária.

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Códice antigo

Sobre este Áquila, a que já aludimos há alguns dias atrás, sabemos que fez uma tradução do Antigo Testamento para a língua grega. Terá sido por essa altura que corrompeu parte do texto original, criando um novo, cujo significado se distanciava bastante do judaico. Mas porque o fez? Essa é uma história curiosa, e que já vem, pelo menos, do século IV d.C. ...

 

Áquila de Sínope foi um pagão que se converteu ao Cristianismo. Gostava bastante da sua nova religião, mas mesmo assim não queria deixar de lado a mesma Astrologia que tanto o tinha apaixonado até então. Por isso, e após ter sido avisado por diversas vezes que não podia continuar a seguir essas práticas, foi expulso da fé cristã. Com o seu espírito repleto de sentimentos de vingança, decidiu então converter-se ao Judaísmo e corromper o texto bíblico, para assim se vingar da religião cristã.

 

Mas... será esta história verdade? A alusão mais antiga que encontrámos a ela provém de um texto de Epifânio de Salamina, cerca de 200 anos após os acontecimentos originais, sendo possível que se trate de uma ficção. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que existem diferenças entre o texto judaico e o grego do Antigo Testamento; serão fruto das alterações de Áquila, meros erros de traduções (traduttore, traditore), ou terão surgido por uma qualquer outra razão? Isso é que já não sabemos; caberá ao leitor pensar no problema e chegar às suas próprias conclusões.

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Diálogo

Hoje em dia, aqueles que seguem as mensagens do Cristianismo tendem a esquecer-se, talvez até em demasia, que essa religião provém do Judaísmo. É uma espécie de sequela. Mas, devido a essas origens, existiu um tempo em que havia uma necessidade de discutir a ligação entre ambas, e que até já aparece representado nas epístolas hoje presentes no Novo Testamento. Foi nesse contexto que, ao longo dos primeiros séculos da nossa era, foram surgindo diversos diálogos em que as duas religiões eram opostas uma à outra, normalmente de forma a fazer uma apologia da nova religião, tentando obter novos conversos entre os judeus.

 

Se existem vários diálogos desta natureza - na pesquisa para este artigo tivemos acesso a cinco - aqui falamos, em específico, do Diálogo de Timóteo e Áquila pelo facto de se tratar do mais interessante exemplo deste género literário na Antiguidade. Existe uma breve trama em redor de todo o debate e o judeu, Áquila, até tem um papel activo. Claro que no final este acaba por ser converter ao Cristianismo - como não podia deixar de ser - mas, pelo menos, não se limita a aceitar impavidamente os ataques do opositor, apresentando visões e opiniões potencialmente reais.

 

O diálogo, em si, poderá parecer um pouco enfadonho para o leitor comum, mas gira em torno da interpretação e reinterpretação dos textos bíblicos. Vão sendo citados momentos do Antigo Testamento que o cristão usa em favor da sua religião, com o judeu a levantar algumas oposições. Inesperadamente, num dado momento é até explicado que existiam, sim, diferenças entre o AT cristão e o texto judaico, muitas vezes ao nível das previsões de vinda do Messias, mas que isso só acontecia porque Áquila [de Sínope, diferente da personagem judaica do texto] corrompeu algumas traduções gregas - mas essa é uma história que fica para outro dia.

 

No seu geral, este não é, como já foi dito, um diálogo particularmente interessante para o leitor comum, mas é-o certamente para quem tiver interesse na forma como as fés judaica e cristã se entrelaçavam nos primeiros séculos da nossa era.

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Quem for a Roma poderá encontrar na Capela de São Zeno da Basílica de Santa Prassede o seguinte mosaico:

Mais do que nos focarmos nas três figuras com coroas solares - duas santas acompanhadas pela Virgem Maria - preste-se é atenção à figura no lado esquerdo. Ténues letras permitem identificá-la como uma Epíscopa Teodo[ra], ou seja, a mãe do Papa Pascoal I. Mas o que representa o rectângulo em redor da sua cabeça? A prática parece ter caído em desuso ao longo dos séculos, mas aqui refere-se ao facto de ela ainda estar viva quando o mosaico foi colocado no local; também o seu filho, como pode ser visto abaixo, tem nesse recinto uma representação com contornos semelhantes.

Interessante, hem?

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