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Um poeta da Antiguidade

As fontes literárias que temos referem que Vilgardo de Ravena foi um dos primeiros heréticos medievais. Porém, o que o torna digno de nota é mesmo a forma como essa sua heresia nasceu - as fontes dizem que ele se aplicou tanto nos estudos literários que, numa dada altura, lhe apareceram durante a noite os espíritos de Virgílio, Horácio e Juvenal. Estes agradeceram-lhe o estudo intenso, antes de lhe asseguraram que também ele iria partilhar da mesma glória literária que eles tinham. Isto levou-o a uma curiosa heresia, em que defendia que as palavras "dos poetas", numa natural referência aos autores latinos da Antiguidade, eram sempre dignas de serem acreditadas.

 

Infelizmente, sabemos pouco mais sobre este Vilgardo de Ravena. Seria interessante saber como essa sua crença se intersectava com os ensinamentos da religião cristã, mas essa informação parece ter sido perdida ao longo dos séculos, até porque não temos conhecimento de ele ter composto qualquer obra literária.

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Códice antigo

Sobre este Áquila, a que já aludimos há alguns dias atrás, sabemos que fez uma tradução do Antigo Testamento para a língua grega. Terá sido por essa altura que corrompeu parte do texto original, criando um novo, cujo significado se distanciava bastante do judaico. Mas porque o fez? Essa é uma história curiosa, e que já vem, pelo menos, do século IV d.C. ...

 

Áquila de Sínope foi um pagão que se converteu ao Cristianismo. Gostava bastante da sua nova religião, mas mesmo assim não queria deixar de lado a mesma Astrologia que tanto o tinha apaixonado até então. Por isso, e após ter sido avisado por diversas vezes que não podia continuar a seguir essas práticas, foi expulso da fé cristã. Com o seu espírito repleto de sentimentos de vingança, decidiu então converter-se ao Judaísmo e corromper o texto bíblico, para assim se vingar da religião cristã.

 

Mas... será esta história verdade? A alusão mais antiga que encontrámos a ela provém de um texto de Epifânio de Salamina, cerca de 200 anos após os acontecimentos originais, sendo possível que se trate de uma ficção. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que existem diferenças entre o texto judaico e o grego do Antigo Testamento; serão fruto das alterações de Áquila, meros erros de traduções (traduttore, traditore), ou terão surgido por uma qualquer outra razão? Isso é que já não sabemos; caberá ao leitor pensar no problema e chegar às suas próprias conclusões.

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Diálogo

Hoje em dia, aqueles que seguem as mensagens do Cristianismo tendem a esquecer-se, talvez até em demasia, que essa religião provém do Judaísmo. É uma espécie de sequela. Mas, devido a essas origens, existiu um tempo em que havia uma necessidade de discutir a ligação entre ambas, e que até já aparece representado nas epístolas hoje presentes no Novo Testamento. Foi nesse contexto que, ao longo dos primeiros séculos da nossa era, foram surgindo diversos diálogos em que as duas religiões eram opostas uma à outra, normalmente de forma a fazer uma apologia da nova religião, tentando obter novos conversos entre os judeus.

 

Se existem vários diálogos desta natureza - na pesquisa para este artigo tivemos acesso a cinco - aqui falamos, em específico, do Diálogo de Timóteo e Áquila pelo facto de se tratar do mais interessante exemplo deste género literário na Antiguidade. Existe uma breve trama em redor de todo o debate e o judeu, Áquila, até tem um papel activo. Claro que no final este acaba por ser converter ao Cristianismo - como não podia deixar de ser - mas, pelo menos, não se limita a aceitar impavidamente os ataques do opositor, apresentando visões e opiniões potencialmente reais.

 

O diálogo, em si, poderá parecer um pouco enfadonho para o leitor comum, mas gira em torno da interpretação e reinterpretação dos textos bíblicos. Vão sendo citados momentos do Antigo Testamento que o cristão usa em favor da sua religião, com o judeu a levantar algumas oposições. Inesperadamente, num dado momento é até explicado que existiam, sim, diferenças entre o AT cristão e o texto judaico, muitas vezes ao nível das previsões de vinda do Messias, mas que isso só acontecia porque Áquila [de Sínope, diferente da personagem judaica do texto] corrompeu algumas traduções gregas - mas essa é uma história que fica para outro dia.

 

No seu geral, este não é, como já foi dito, um diálogo particularmente interessante para o leitor comum, mas é-o certamente para quem tiver interesse na forma como as fés judaica e cristã se entrelaçavam nos primeiros séculos da nossa era.

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Quem for a Roma poderá encontrar na Capela de São Zeno da Basílica de Santa Prassede o seguinte mosaico:

Mais do que nos focarmos nas três figuras com coroas solares - duas santas acompanhadas pela Virgem Maria - preste-se é atenção à figura no lado esquerdo. Ténues letras permitem identificá-la como uma Epíscopa Teodo[ra], ou seja, a mãe do Papa Pascoal I. Mas o que representa o rectângulo em redor da sua cabeça? A prática parece ter caído em desuso ao longo dos séculos, mas aqui refere-se ao facto de ela ainda estar viva quando o mosaico foi colocado no local; também o seu filho, como pode ser visto abaixo, tem nesse recinto uma representação com contornos semelhantes.

Interessante, hem?

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livro

Associamos estes dois livros pelo facto de, essencialmente, se tratarem de um só, em que quase só mudam os nomes dos seus intervenientes. E, nesse seguimento, são obras relativamente simples, em que uma das personagens coloca algumas questões àquela que lhe é superior. Vejamos três exemplos particularmente curiosos:

 

  • Quais são as quatro coisas que jamais estarão satisfeitas?

A terra, o fogo, o inferno e um homem que deseja as riquezas do mundo.

  • Qual foi o homem que morreu mas não nasceu, e depois da morte foi sepultado no ventre de sua mãe?

Foi Adão, o primeiro homem, porque a terra foi a sua mãe, e depois da morte foi aí sepultado.

  • Como é que Cristo nasceu da sua mãe, Maria?

Pelo seio direito.

 

Além destes pequenos exemplos, existem nestas obras alguns elementos que não deixam de ser curiosos. Numa dada altura é referido, indirectamente, que o fruto da famosa árvore do Paraíso era o figo. Porquê este, e não a maçã? A resposta é fácil de compreender se  recordarmos que no Evangelho Segundo São Marcos Jesus amaldiçoou uma figueira. De facto, é essa mecânica de ideias que pauta o conteúdo da obra - é feita uma questão e depois é apresentada uma resposta que, em muitos casos (mas nem sempre!), pode ser subentendida do texto bíblico ou de alguns elementos da cultura cristã medieval. E, nesse sentido, se não é uma obra muito interessante para um leitor leigo, aqueles que tenham interesse na evolução das crenças cristãs poderão aqui encontrar muito material que lhes dará que pensar.

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São Pedro e o cão

Muitos e curiosos são os episódios atribuídos a personagens bíblicas mas que não têm lugar na Bíblia. Este, de São Pedro e do seu cão falante, que hoje aqui resumimos numa das suas versões (existem mais, deixe-se isso bem claro), é um deles:

 

Um dia, estando São Pedro na cidade de Roma, procurava Simão Mago. Ouvindo dizer que este se encontrava na casa de um nobre romano, de seu nome Marcelo, foi aí em busca dele. Próximo da porta de entrada viu um cão preso com uma coleira. Decidiu soltá-lo, ao que o animal lhe respondeu dizendo, com voz humana, "O que posso fazer por ti, ó servo do deus vivo?". Pedro simplesmente lhe pediu que entrasse na casa e fosse buscar Simão Mago. O animal fê-lo, mas o choque de o ouvir a falar entre os presentes foi tão grande que levou à conversão de Marcelo.

 

Presume-se que esta seja uma história puramente ficcional, até porque não aparece nas fontes mais antigas para o confronto de S. Pedro com Simão Mago, mas enquanto milagre que demonstra o poder divino, não podemos deixar de ver todo o episódio como curiosíssimo. Nada era impossível a Deus, pensava quem compôs esta sequência, e por isso... fazer com que os cães falassem com voz humana dificilmente lhes pareceria estranho. Quem não se converteria face a tamanho milagre?!

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Nos primeiros séculos do Cristianismo surgiu um importante problema - como representar a(s) figura(s) divina(s)? As respostas foram-se sucedendo umas ás outras, mas o exemplo que aqui hoje apresentamos provém da Basilica di Santa Maria Maggiore, em Roma. Jogando uma espécie de "Onde está o Wally?", será que vêem algo de muito curioso nesta primeira imagem?

Muitas poderiam, naturalmente, ser as respostas, dada a vasta extensão iconográfica vista na imagem, mas foquemo-nos então num pormenor mais limitado:

Estas interpretações são sempre muito discutíveis, mas podem aqui ser vistos os quatro evangelistas (sob a forma de de um touro alado, um homem alado, um leão alado e uma águia), juntamente com São Pedro e São Paulo. Por baixo, um pequeno texto diz algo como "O bispo Sexto, para o povo de Deus". Mas o que está dentro de um círculo? Aqui não é muito fácil de se perceber, mas assemelha-se a uma espécie de trono com uma cruz, ambos ricamente adornados. Será Deus? Será Cristo? Será toda a Trindade? Em qualquer um dos casos é notável, esta representação da(s) figura(s) divina(s) pela ausência; a nós, até nos poderá parecer muito estranha, pelo que importa perguntar - a que se deve ela?

 

Bem, simplificadamente, o Judaísmo tem uma proibição da representação da figura divina, que até está muito bem presente no Antigo Testamento. Uma interdição semelhante existia nos primeiros séculos do Cristianismo, pelo que cedo se pôs a questão de como mostrar o que não podia ser mostrado, e esta foi uma das soluções encontradas. Por estranha que ainda nos pareça é, filosoficamente, uma representação mais fiel do que a do velho de barbas brancas que tanto imaginamos nos nossos dias.

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