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Não são fáceis de notar, até porque se presume que não seja muitas as pessoas que decidem "caçá-las", mas existem algumas citações de autores da Antiguidade Clássica nos textos do Novo Testamento. Aqui ficam três pequenos exemplos:

 

  • Actos dos Apóstolos 17:28, a citação provém dos Fenómenos de Arato
  • Primeira Epístola aos Coríntios 15:33, a citação provém de Menandro
  • Epístola a Tito 1:12, é citado um famoso provérbio relativo aos Cretenses

 

Estes três exemplos permitem-nos compreender que o autor das epístolas tinha, pelo menos, algum conhecimento da literatura grega... mas será que conhecem alguns outros exemplos de citações de autores da Antiguidade na Bíblia?

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Muitos são os segredos que se escondem nas linhas do Antigo Testamento. Infelizmente, ainda não encontrámos qualquer livro que aborde todos eles (se souberem de algum, por favor deixem essa informação nos comentários!), pelo que esta semana voltaremos a focar-nos num segundo mistério - de que árvore provinha o fruto que Adão e Eva comeram? Terá sido, como frequentemente representado em imagens cristãs, a maçã?

É muito provável que a história do Paraíso e da singular árvore tenha antecedido o próprio Judaísmo, porque existem representações de episódios a eles semelhantes em períodos muito anteriores. Porém, nenhuma delas permite identificar seja a árvore, ou o fruto desta. Mesmo aqueles que procurem, quase com uma lupa, essa informação no texto do Antigo Testamento rapidamente acabarão frustrados - não está lá, estando tão oculta que a Árvore da Vida facilmente se confunde com a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, ao ponto das suas características muito se confundirem. Poderiam procurar-se respostas noutras religiões da mesma área geográfica, mas isso também leva a um problema inesperado - mesmo quando é de alguma forma identificada (por exemplo, quando os praticantes do Zoroastrianismo falam da haoma), desconhecemos qual a sua equivalência moderna.

 

Tentemos então uma resposta inversa - terá sido a árvore a macieira, e o fruto proíbido a maçã? Já responder a essa pergunta implica falar um pouco do texto bíblico cristão. Quando São Jerónimo, por volta do século IV ou V, traduziu esses textos para Latim, criou uma tradução tão popular que durante séculos e séculos seria a utilizada por toda a Europa. E no seu texto ocorria, evidentemente, uma palavra como malus ("o mal"), ou mali ("do mal").

Contudo, se alguém na mesma época quisesse escrever "a maçã" ou "da maçã", fá-lo-ia precisamente da mesma forma - malus e mali - só mudando muito ligeiramente o som produzido oralmente.

Agora, se nada no texto identifica mesmo o fruto, a semelhança de palavras facilmente poderá ter levado a que este passasse a dizer o que não diz - que essa árvore dava... maçãs. E assim surgiu mais uma ideia que não está escrita na Bíblia, a de que Adão e Eva poderão ter sido expulsos do Paraíso por causa de um fruto de macieira.

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Como há algumas semanas atrás os leitores pareceram ter gostado de uma outra temática como esta, decidimos revisitá-la com um tema significativamente diferente, o dos dez mandamentos. Quais são eles? "Não matarás" é um dos mais evidentes, aquele que qualquer leitor certamente saberá dizer, mas quais são os restantes? E será que a sua ordem até importa, ou é somente relevante que todos eles sejam cumpridos? Há neles um segredo que muitos ignoram, mas que pode ajudar a decifrar esse problema. Vamos a isso?

 

Na imagem acima, retirada do famoso filme Os Dez Mandamentos com Charlton Heston, Moisés tem nas mãos duas tábuas da lei, um elemento igualmente constante no texto bíblico (ver, por exemplo, Livro do Êxodo 34:1-4). Mas porquê a necessidade de duas tábuas, em vez de apenas uma (que até poderia ser inscrita dos dois lados), ou de dez pequenas tabuinhas? O segredo prende-se precisamente com essa resposta. Ao serem lidos, com atenção, os dez mandamentos, rapidamente se nota que podem ser divididos em duas categorias distintas:

 

Se foi Deus a enviá-los, faz sentido que recorde o seu papel passado ("Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito", cf. Livro do Êxodo 20:1), antes de dizer que só ele deverá ser venerado e que dele não devem ser feitas imagens. Prossegue, depois, dizendo que o seu nome também não deverá ser evocado em vão, e que o sabbath [judaico] a ele deve ser dedicado. Ou seja, estes quatro primeiros mandamentos, os da primeira tábua, são dedicados à relação do homem com a figura divina, dizendo-nos como esta deverá ser venerada.

 

Prossegue-se depois com os mandamentos da segunda tábua, que contêm as regras que os homens devem seguir entre eles. Honrar pai e mãe, primeiro que tudo, como elementos essenciais da família; depois, não matar (que seria o essencialmente para com aqueles que não pertencem à nossa família), não cometer adultério, não roubar, não levantar falsos testemunhos, nem cobiçar o que é dos outros (i.e. não fazer quaisquer actos que destruam famílias). Ou seja, resumidamente, não fazer nada que prejudique a comunidade no seu todo.

 

O que tem isto de especial? Séculos mais tarde, quando confrontado por um doutor da lei, Jesus Cristo referiu somente dois grandes mandamentos - "Amar a Deus sobre todas as coisas" e "Amar o próximo como a ti mesmo" (cf. Evangelho Segundo Mateus 22:35-40). Esses mandamentos nada têm de novo, não sendo mais do que o resumo do conteúdo presente nas mesmas duas tábuas da lei. A sua ordenação interna é secundária face à sua grande lição - respeito para com Deus e para com o próximo.

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Na obra medieval Malleus Maleficarum (algo como "O martelo das maléficas [ou bruxas]"), a que voltaremos dentro de algum tempo, é revelado que as bruxas dessa altura veneravam essencialmente duas figuras, Diana e Herodias.

 

É natural que Diana se tenha tratado da deusa romana da caça, semelhante à Ártemis grega e que por diversas razões foi venerada até muito mais tarde que os outros deuses pagãos (como um templo existente em Sintra ainda parece atestar), mas quem foi Herodias? Não é fácil ter uma absoluta certeza, mas é provável que se tenha tratado de uma esposa do rei Herodes, a mesma que pela dança de uma filha levou à decapitação de João Baptista.

 

Também não será fácil explicar o porquê da associação destas duas figuras, em concreto, aos rituais mágicos, mas poderá ter-se devido ao sincretismo de um conjunto de características que pareciam atribuir-lhes poder especial sobre os homens, sejam, por exemplo, os poderes mágicos da primeira figura (recorde-se o desfecho do mito de Acteon), ou a persuasiva dança da filha de Herodias, a quem hoje chamamos Salomé.

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Na religião do Antigo Egipto muitas eram as coisas que tomavam lugar após a morte. A pesagem da ka (ou do coração) de um defunto, que não poderia exceder o peso de uma pena, é provavelmente uma das mais famosas para os leitores comuns, mas evidentemente que não era a única.

De facto, uma das mais interessantes era o defunto ter de passar por um período em que fazia uma "confissão negativa" dos seus erros, ou seja, contrariamente ao que fazemos hoje, em que na religião de Jesus Cristo vamos a um padre e dizemos o que fizemos de mal, este processo passava por declarar, de uma espécie de lista, um conjunto de erros dos quais não somos culpados. No Papiro de Ani estas eram 42 cláusulas, que deveriam ser declaradas a Maat, deusa da justiça. Mas em que consistiam?

 

No seu âmago, passavam por negar roubos, violência (assassinatos, etc.), a disseminação de más palavras (mentiras, feitiços, enganos, difamações, etc.), ou traições amorosas. Mas entre elas também se contavam afirmações mais inesperadas, como "não fiz ninguém chorar", "não comi corações", "não escutei o que não devia", "não me zanguei sem razão", "não actuei com pressa indevida", "não falei demais", "não falei alto demais" ou "não fui arrogante".

 

Curioso é o facto de estas afirmações terem alguma semelhança com os "10 Mandamentos" do Judaísmo e do Cristianismo, não só pela forma negativa de algumas cláusulas ("Não matarás", "não matarás", "não cobiçarás a mulher alheia", etc.), mas pela própria natureza dos seus conteúdos. Até podem ter uma enorme divergência - as recomendações dos mandamentos, antes dos factos ocorrerem versus a confissão dos mesmos, após tomarem lugar - mas é provável, até tendo em conta toda a história de Moisés, que estas regras judaicas se tenham baseado, de alguma forma, em conteúdos egípcios pré-existentes.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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