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Raros são, como já uma vez aqui dissemos, os mitos associados a Hércules após este ter ascendido ao Olimpo. Aqui fica uma pequena excepção a essa regra:

Conta-nos uma das fábulas de Fedro que quando Hércules ascendeu ao Olimpo os vários deuses o vieram cumprimentar. No entanto, quando Plutão (deus dos Infernos, mas também das riquezas) o fez, o novo deus virou a sua cara, justificando a sua acção da seguinte forma - "Odeio-o, porque ele é amigo daqueles que são perversos, e ao mesmo tempo corrompe toda a humanidade ao apresentar a tentação de lucrar mais e mais".

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A figura de Argos - que não deve ser confundida com um outro Argos, o cão de Ulisses - é famosa de um episódio em que a deusa Hera o colocou a guardar Io, uma princesa grega que tinha sido amada por Zeus, mas que agora estava transformada em vaca. Tratar-se-ia do guarda perfeito, já que todo o seu corpo tinha incontáveis olhos, pelo menos um dos quais estava constantemente aberto e atento. Hermes, a mando do pai dos deuses, posteriormente faria a criatura adormecer (a forma como o fez varia mediante as diversas versões do mito), matando-o em seguida e salvando Io.

Este monstro, como um anterior, também provém da série Zyuranger. Aqui chamado "[Dora]Argos", estava totalmente coberto de olhos, um dos quais estava sempre acordado (ter em atenção o olho amarelo, na imagem acima). Se o resto do episódio pouco nos diz em relação ao mito original, é curiosa esta representação da figura, até infrequente na cultura ocidental; a maior parte das vezes Argos é mostrado somente como um pastor, apesar de existirem excepções, como a mostrada abaixo, em que o seu corpo pode ser visto com vários olhos fechados no momento em que Mercúrio se preparava para o degolar:

Para quem não o saiba ainda, ao término do mito é feita também uma breve alusão na imagem acima - no canto superior esquerdo pode ser vista Hera e um pavão. Diz-nos a mesma história que após a morte de Argos, a deusa decidiu transformá-lo nesse animal, preservando os seus miraculosos olhos nas belas penas do animal.

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Circe é talvez uma das mais famosas feiticeiras da cultura ocidental, sendo famosa da Odisseia homérica. Dizia-nos aí o poeta que esta transformava os homens que visitavam a sua ilha em animais, e a subsequente moralização desse mito deu-lhe uma visão que se tornou popular na Idade Média, em que as transformações desta figura apenas revelavam o que as pessoas já tinham no seu interior; por exemplo, um homem impiedoso poderia tornar-se um lobo, um homem que liga demasiado à beleza um pavão, uma mulher que vendia o seu corpo uma loba, e assim por diante. A imagem abaixo provém de uma tal reinterpretação do mito, presente na série nipónica Zyuranger.

Esta monstruosa figura, a que na série chamavam "[Dora]Circe", era um porco glutão numa forma quase humana. Poderia pensar-se que a ligação ao mito é muito ténue, mas o mesmo episódio cedo afasta essa ideia; quando os heróis tentam recolher mais informação sobre a criatura, o seu mentor reconta-lhes parte do mito de Odisseu e Circe, apontando a forma como esse herói grego derrotou a feiticeira recorrendo a uma erva mágica. É seguindo a mesma ideia que os heróis acabam por destruir este monstro, numa sequência cujas múltiplas interrelações com o mito estão bem à vista.

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A morte de Adónis

A paixão de Afrodite pelo belo Adónis é provavelmente um dos mais famosos mitos da Antiguidade. Também o é o desfecho de toda a história, em que o belíssimo jovem é morto por um javali, mas muito mais inesperado é o breve tratamento que este pequeno poema dá ao tema (pode ser lido, em grego e inglês, aqui). Nele, a deusa do amor manda capturar o javali, provavelmente com vista a fazê-lo pagar pelo seu crime; no entanto, o atemorizado animal explica-lhe que nada de mal desejava ao jovem, pedindo as maiores desculpas e dizendo que não queria mais do que acariciar aquele ser tão belo que tinha visto à sua frente, acabando por magoá-lo sem querer. Cheia de compaixão, a deusa perdoou o animal e deixou que este se juntasse ao seu séquito.

 

Face a uma tão invulgar versão deste mito, somos obrigados a interrogar-nos sobre as suas potenciais fontes. Seria esta uma invenção de um autor de identidade desconhecida, ou estava assente numa tradição a que já não temos acesso? Esta pequena sequência certamente que destoaria numa tragédia, sendo muito mais provável que, como no caso do porco que falou com Odisseu, se tenha tratado de uma sequência que não fazia parte do mito original.

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Imagem que claramente não é Estentor

É provável que nunca tenham ouvido falar de Estentor, essencialmente pelo facto de se tratar de uma figura mitológica menor. Deste herói sabemos, somente através da Ilíada, que tinha uma voz tão poderosa como a de cinquenta homens. Interessante, claro, mas igualmente muito pouco satisfatório, seja para a trama do épico ou para um maior conhecimento por parte do leitor.

 

Porém, é em momentos como estes que podemos ver a grande importância dos escólios presentes em algumas das obras da Antiguidade. Sobre essa passagem do quinto livro da Ilíada é-nos adicionado um elemento que, apesar de pequeno, acrescenta bastante à história - parece que este Estentor, após o término da Guerra de Tróia, decidiu desafiar o deus Hermes para um concurso de gritos. Naturalmente que perdeu, mas a forma como isso levou à sua morte já não nos é explicado.

 

Existem bastantes tipos de informações que podem ser encontradas em escólios, desde curiosidades gramáticas até histórias como estas; infelizmente, também não existem publicados em tradução, seja inglesa ou portuguesa. São, por isso, muitas vezes de difícil acesso, mas quem a eles tenha acesso também lá pode encontrar conteúdo muito inesperado!

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Este espaço é da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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