Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Há mais de um ano que aqui falámos da origem das fadas. Recentemente, adquirimos um livro intitulado Les Fées du Moyen-Age, da autoria de L. Maury, que acrescenta alguma informação a esse tema, não só relativamente às fadas, em si, mas também a outras criaturas medievais, como os gnomos e os trolls.

Another of the Cottingley Fairies

Aparentemente, as fadas podem provir das fatae latinas. Se sabemos que as ideias pagãs, após a ascenção do Cristianismo, sobreviveram mais tempo nas pequenas povoações do que nas grandes cidades, o que parece ter acontecido é que existiu um desenvolvimento paralelo (e pouco documentado) de algumas crenças. Assim, uma crença nas fatae - em termos de Destinos, Moirae, etc. - parece ter-se indo associando a alguns locais rurais específicos, e depois foi evoluindo através de um sincretismo de outras crenças antigas. Por exemplo, a sua magia e conhecimento do futuro poderá vir dos Destinos romanos; as suas danças, das que tinham lugar nos rituais de Baco; a sua longa idade, da dos Sátiros campestres; a sua pureza, da das sacerdotisas; o seu local de habitação, da antiga veneração de árvores, cavernas e cursos de água; etc.

O curioso desta possibilidade é que permite, aqui e ali, reencontrar vectores de ligação aos mitos da Antiguidade. Quando a Bela Adormecia é destinada, por uma fada malévola, a se picar numa roca de fiar, não se torna fácil ver nessa história uma alusão ao carácter fiandeiro e destinador das três Moiras dos Gregos, agora vistas como malévolas por influência do Cristianismo? Quando um cavaleiro medieval encontra uma fada dos cursos de água, como a Senhora do Lago arturiana, não estariam os autores da história a pensar ainda nas Ninfas de outros tempos, que também ajudavam alguns heróis? As suas asas, não poderão elas provir das de Eros/Cupido?

 

Face a esta argumentação, parece-nos justo, por fim, ver na origem das fadas uma amálgama de múltiplas crenças pré-cristãs, que ao longo dos séculos se foram cristalizando numa só figura de muitos atributos, tanto salvadora como destruidora (mediante quem a vê), e que parece ir mantendo funções dispersas que o Cristianismo tanto tentou eliminar e/ou sobrescrever com o culto dos santos.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cila e Minos

Conta-nos uma breve história que, numa dada altura, os impérios de Minos e de Niso se encontraram no campo de batalha. A sua batalha durou vários meses, até porque Niso tinha no seu cabelo uma madeixa de cabelo de cor púrpura que garantia a completa invulnerabilidade do reino.

Um dia, a filha de Niso, Cila, viu Minos ao de longe e apaixonou-se por ele. Pretendendo agradar ao seu amado, cortou a madeixa púrpura do pai e entregou-a a esse rei de Creta, mas ele, enojado com o acto inglório da jovem, rejeitou-a sumariamente e abandonou a sua campanha bélica (é esse momento da trama que pode ser visto na pintura acima, com o gesto de Minos a pretender o afastamento de Cila).

O que aconteceu em seguida já depende da versão do mito, mas o que sabemos é que tanto Niso como Cila sofreram uma transformação em pássaros, com o primeiro a perseguir perpetuamente a segunda, procurando vingar o ultraje de que foi alvo.

 

Também aqui deve ser acrescentado que a personagem desta história era uma das duas Cilas conhecidas nos mitos gregos. A outra, bem mais conhecida até da Odisseia de Homero, pode ser vista na imagem abaixo:

Cila

Esta outra Cila, quase sempre associada a Caribdis, já tem uma história mais complicada, cujos contornos variam bastante mediante a versão lida. O que se mantém, quase sempre, é o seguinte - Cila era uma ninfa bela e muito amada por um deus, mas igualmente invejada por outra figura divina que também o amava. Fruto dessa inveja, Cila foi de alguma forma envenenada e transformada numa criatura hedionda (conta-se que tinha, pelo menos, seis cabeças de cão, parcialmente visíveis na imagem), que juntamente com outro monstro mitológico atormentava os navegadores que se atreviam a passar nas redondezas, como bem ilustrado no XII livro da Odisseia. O seu destino final é um pouco obscuro, mas pelo menos dois autores referem que ela foi derrotada por algum herói e trazida de volta à vida, possivelmente na sua forma original, pela compaixão do seu próprio pai.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Mármore Pário

Na imagem acima pode ser vista uma reprodução do texto da Crónica de Paros, um mármore que foi reencontrado no século XVII e que apresenta uma cronologia dos tempos gregos, aproximadamente desde o ano 1581 a.C., em que Cécrops se tornou o primeiro rei de Atenas, até ao ano 299 a.C., em que Euctemón foi arconte em Atenas. É uma crónica curiosíssima, na medida que funde eventos míticos (o dilúvio de Deucalião, o reinado de Teseu, a vida de Héracles, etc.), com aqueles que tendemos a considerar como históricos, como as conquistas de Alexandre Magno. Essa necessidade de contar o tempo, a altura em que tiveram lugar alguns dos eventos do passado, levanta uma questão - afinal, como era a contagem do tempo feita na Antiguidade?

 

Partindo do exemplo da Crónica de Paros, as entradas mais antigas mencionam quem foi rei em Atenas na altura em que um dado acontecimento teve lugar. Depois, por volta da entrada relativa ao ano de 683 a.C., é dito que começou a ser praticado um arcontado, e então as datas seguintes vão sendo associadas à pessoa que num dado ano era arconte em Atenas. O que distingue os dois períodos? Os eventos anteriores a esse ano de 683 a.C. podem ser considerados míticos, enquanto que os mais recentes já têm um fundamento histórico.

 

Poderá parecer simples, mas esta não era a única opção. No tempo dos Gregos também era feita uma contagem do tempo associando eventos aos Jogos Olímpicos, algo como "no terceiro ano da vigésima-segunda olimpíada..." E, de facto, nas fontes que temos a contagem é feita recorrendo-se tanto aos arcontes como aos períodos dos Jogos Olímpicos.

 

Salte-se algum tempo e considere-se, agora, um segundo exemplo, o dos Romanos. Como é que eles contavam os seus períodos de tempo? Essencialmente, tendiam a recorrer a um contagem ad urbe condita, ou seja, algo como "passados X anos da fundação da cidade [de Roma]", com esse evento crucial a tomar lugar por volta de 753 a.C. Mas, tal como no caso dos Gregos, esta não era a única opção - muitas vezes a datação também era feita recorrendo-se aos cônsules, de que a obra de Júlio Obsequente é um bom exemplo, ou até aos Imperadores.

 

Depois do tempo dos Romanos começou, essencialmente, a ser usada uma cronologia cristã, que apesar de ter sido alterada ao longo dos tempos já ultrapassa o nosso tema de hoje. Resta, no entanto, uma questão problemática - como é que os Gregos contavam o tempo antes dos reis de Atenas e dos Jogos Olímpicos? Ou, se preferirmos os Romanos, como é que eles o faziam antes da datação AUC? Não sabemos, mas se alguém tiver alguma ideia por favor deixe-a nos comentários.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

Este pequeno mito apenas nos chegou nas linhas fragmentárias de Posidipo.

Segundo este autor, Aristoxeino teve um sonho em que se viu como noivo de Atena e a dormir num quarto dourado do Olimpo. Depois, sentindo-se inspirado por essa ocorrência, foi para uma batalha sentindo a coragem da deusa no seu peito. Contudo, Ares - se o próprio deus, ou a sua metafórica guerra, não é totalmente claro - depressa o "pôs a dormir", levando este falso noivo para o reino de Hades.

 

Esta trama é curiosa, essencialmente pelo facto de nos apresentar um caso de um homem que, por ter entendido mal uma (potencial) mensagem divina, foi conduzido à sua destruição. Dentro do mesmo tema, claro que é famoso o caso de Creso e o seu "Se atacares, um grande império será destruído" délfico, mas será que as coisas aqui teriam sido diferentes se Aristoxeino tivesse aprendido interpretação de sonhos?

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

De entre os muitos textos que nos chegaram dos tempos da Antiguidade, poucos serão tão populares como as fábulas de Esopo. De facto, até nos arriscaríamos a dizer, sem certezas de maior, que nos nossos dias as pequenas histórias que lhe estão atribuídas são ainda mais famosas que os Poemas Homéricos. Mas, estranhamente, já poucos parecem perguntar-se quem foi Esopo, e porque contou ele as famosas fábulas.

 

Se pretenderem uma resposta rápida, ela deverá ser "não sabemos". Se Esopo realmente existiu, as suas fábulas dizem-nos muito pouco sobre ele, e são poucos os autores que nos preservam qualquer espécie de dados biográficos. Mas, visto que este é um mês dedicado aos mitos, lendas e histórias, estas linhas ainda não ficam por aqui.

 

Numa dada altura da Antiguidade alguém se apercebeu do mesmo problema. Provavelmente também essa pessoa se interrogava sobre a identidade de Esopo. E, por isso, decidiu escrever um texto sobre o tema, que nos chegou e a que hoje damos o nome de Vida de Esopo ou Romance de Esopo. Não temos qualquer forma de saber quais os elementos reais dessa obra, e quais as ficções que ela inclui, mas segundo as suas linhas Esopo poderá ter sido contemporâneo de Creso, no século VI a.C. E, então, quem foi Esopo? E, tanto ou mais importante, porque compôs fábulas?

 

Segundo a versão deste texto (ficcional?), Esopo era um escravo muito feio e mudo. Um dia ajudou uma sacerdotisa de Isis; como agradecimento, esta pediu à deusa que desse novas faculdades ao herói. Agora capaz de falar (mas ainda muito feio - o contraste da sua fealdade com a sua enorme sabedoria é um elemento muito importante da trama), depressa foi vendido a um novo dono, de nome Xanto. Grande parte do texto apresenta Esopo em confronto com esse novo dono e nos mais diversos desafios de conhecimento, mas esses episódios ultrapassam o nosso objectivo de hoje.

Num dado momento surge então a primeira fábula - o famoso Rei Creso estava prestes a atacar a cidade de Samos, a quem exigia um tributo anual. Foi pedida a opinião de Esopo sobre o que se deveria fazer, a que este respondeu algo como "Não posso dá-la, porque seria marcado como inimigo do rei. Porém, irei contar-vos uma fábula". Prosseguiu, contando-lhes uma primeira fábula, em que Prometeu instruiu os Homens nos caminhos da liberdade e da servidão. Os ouvintes compreenderam o que ele estava a querer dizer e agiram em consonância.

 

São várias outras as fábulas contadas por Esopo neste texto (curiosamente, a da lebre e da tartaruga, tão bem conhecida entre nós, não é uma delas), mas parecem ter todas elas um mesmo objectivo, o de transmitir uma lição ou moral de uma forma muitíssimo simples. E, de facto, quase todas as fábulas de Esopo são intemporais, perpetuando lições que ainda se mostram muitíssimo relevantes nos nossos dias.

 

Que me perdoem os leitores e o meu colega, mas escrevendo de um modo mais pessoal por um breve momento, posso dizer que há uns anos até dei uma cópia das Fábulas a uma criança, apelidando essa obra de "o melhor livro que se pode dar aos mais novos". E talvez seja até esse o grande segredo da fábula - pouco ou nada sabemos sobre o seu autor (a história acima é, quase certamente, nada mais que uma ficção), mas a lição que frequentemente transmite é, por si só, mais significativa que a identidade do seu autor.

 

Assim, fica uma questão de duas faces - quem pensam vocês ter sido Esopo? E porque acham que contou as suas fábulas?

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Batalha dos Centauros e dos Lápitas

Se há alguns dias aqui falámos dos Centauros, achámos que podíamos igualmente contar um grande mito relativo a eles, o da "Centauromaquia", também conhecida como a "Batalha dos Centauros e dos Lápitas". Se este mito é pouco conhecido nos nossos dias, teve um relevo enorme na arte grega, possivelmente por representar o confronto da civilização (grega) com "o outro", o monstruoso (bárbaro). Por isso, reconte-se o que ainda sabemos sobre este episódio.

 

Piríto, o famoso amigo de Teseu, estava para casar com Hipodâmia e convidou para a boda os Lápitas e os Centauros, com quem - segundo algumas versões do mito - tinha um laço de sangue. Inicialmente tudo corria bem, mas quando os Centauros beberam vinho puro, ao qual não estavam habituados, a sua natureza monstruosa veio ao de cima e começaram a causar problemas - tentaram raptar e violar algumas mulheres, bateram nos homens, e outras coisas que tais.

Como parecerá natural os outros convidados tentaram defender-se, levando a uma enorme batalha entre os dois grupos. Infelizmente, as informações que nos chegaram não preservam muitos detalhes do combate, com a excepção notável de um determinado episódio - sabemos que Ceneu (anteriormente Ceneia, mas esse curioso mito terá de ficar para um outro dia), um herói que era completamente indestrutível, foi enterrado vivo - os Centauros bateram-lhe repetidamente com árvores e atiraram-lhe pedras, até que este seu opositor ficasse totalmente enterrado e, segundo uma versão do mito, caído no próprio reino de Hades ainda vivo!

 

Se leram estas linhas até aqui, fica agora um pequeno convite - voltem a olhar para a imagem reproduzida acima e poderão ver, do lado esquerdo, perto do local em que o vaso está partido, três centauros e uma figura parcialmente soterrada - não podemos ver-lhe a cara, mas uma legenda por perto identifica-o como o Ceneu do mito, próximo do momento em que deixou este mundo.

Um centauro e Ceneu

Como também pode ser visto nesta nova imagem, esse momento específico é preservado num número muito grande de vasos, atestando a já-referida fama desta batalha e, mais concretamente, do episódio que une estes monstruosos adversários a Ceneu. O que não pode deixar de nos levar a uma dúvida natural - sabemos de Ceneu, mas o que mais teve lugar neste confronto guerreiro? Essa é, infelizmente, uma informação que os autores da Antiguidade já não conseguiram fazer chegar até aos nossos dias, restando-nos a famosa ideia, que um dia até foi preservada nos frisos do Parténon, de que esta se tratava de uma batalha metafórica dos Gregos contra os Bárbaros.

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)

Poucas criaturas dos mitos gregos são tão famosas como os centauros. Parte ser humano e parte equídeo, são diversas as sequências mitológicas em que vão aparecendo. Mas, afinal de contas, de onde nasceram estas estranhas criaturas?

Esqueleto de Centauro

De acordo com a versão mais famosa do mito, numa altura em que os deuses e os seres humanos ainda partilhavam os mesmos espaços, o rei Íxion apaixonou-se pela deusa Hera. Zeus, que tudo sabia, fez uma nuvem em forma da sua esposa. Quando o rei a viu, pensou tratar-se da sua amada e tentou violá-la; foi dessa união pouco natural e muito ilegítima que nasceram os centauros.

Porém, esta não é a única versão do mito. Numa outra, estas criaturas nasceram simplesmente da paixão de um homem chamado Centauro, filho de Íxion e Nefele (i.e. a nuvem do mito anterior), pelas éguas do monte em que vivia. Uma terceira versão, provinda de autores como Palaefato, diz que os centauros nunca existiram - em vez disso, a sua ideia surgiu somente porque tinha existido uma tribo de homens que conduzia os seus cavalos de uma forma tão perfeita que ambas as criaturas pareciam tratar-se de uma só.

 

Agora, se são vários os mitos que se referem a centauros do sexo masculino, somos levados a uma questão adicional - será que existiram "Centauras"? Apesar de terem pouca participação nos mitos, a resposta é positiva. Ovídio menciona o caso de uma centaura que se suicidou após o falecimento do marido na famosa batalha contra os Lápitas. Além disso, existem, aqui e ali, exemplos destas criaturas femininas na arte, que se prolongam até aos nossos dias.

Centaura e um Humano

Licença Creative Commons

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog