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Colar de Harmonia a ser oferecido

Há algumas semanas atrás, quando escrevemos sobre o Copo de Vulcano, uma leitora veio-nos perguntar que poderes mágicos tinha esse copo. Na altura tivemos de lhe dizer que este não tinha quaisquer poderes e que, de facto, os objectos terem poderes era algo pouco frequente nos mitos gregos. A Caixa de Pandora, o Escudo de Aquiles, a Armadura de Mémnon, e outros que tais, eram conhecidos em virtude da fama dos seus possuidores iniciais, mais do que por vias de um qualquer poder que pudessem ter. Mas, aqui e ali, até existem algumas excepções, de que o Colar de Harmonia é, muito provavelmente, uma das mais famosas.

 

Conta-nos o mito que, num dado dia, Hefesto apanhou a mulher, Afrodite, a traí-lo com o deus Ares, e por isso decidiu amaldiçoar toda a prole que os dois amantes viessem a ter. Dessa traição nasceu Harmonia, a quem Hefesto deu o mais belo colar alguma vez feito, que até tinha o poder de dar beleza e juventude eterna a quem o possuísse (o que o tornou, diga-se, muito popular entre o sexo feminino). Mas, antes que nos perguntem onde o obter, havia também um "pequeníssimo" senão - a possuidora ficava amaldiçoada e condenada a sofrer tormentas sem fim.

Ainda assim, o colar foi passando de mão em mão, causando repetidos sofrimentos. Na imagem acima, por exemplo, ele pode ser visto no momento em que Polinices o usou para subornar Erifile, para que esta convencesse o marido a juntar-se à Guerra de Tebas. Ela aceitou-o e acabou por sofrer as consequências expectáveis.

Depois, este colar continuou a passar de mão em mão, até que alguém teve a sensatez de o oferecer a um templo em Delfos. Aí ficou durante bastante tempo, até que o tirano Fáilo, provavelmente no século IV a.C., o retirou do local e ofereceu à amante. Em seguida, o seu filho mais novo enloqueceu, deitou fogo à casa em que viviam e morreu juntamente com a própria mãe.

 

Caso alguém deseje ir procurá-lo, onde está agora este Colar de Harmonia? A verdade é que não sabemos... a amante de Fáilo parece ter sido a sua última possuidora, e depois dessa altura a peça de joalharia parece ter desaparecido de todas as histórias que nos chegaram. E, a acreditarmos na veracidade dos seus poderes mágicos, esse até é um desaparecimento que em nada prejudica a humanidade!

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Cavalo de Tróia

Hoje, convém começar por assegurar aos leitores que alguém perguntou mesmo isto ali na secção de pesquisa - "O Cavalo de Tróia foi real?" É como quem diz, "será que o Cavalo de Tróia existiu mesmo?"

 

Se quiserem uma resposta simples e rápida, não temos quaisquer provas de uma existência real do Cavalo de Tróia, nem do que lhe aconteceu depois da suposta conquista da cidade (presume-se que tenha ardido no fogo?). Mas, de uma forma mais leve, propomos um exercício pouco vulgar neste espaço - imaginem que vivem na Tróia de Homero e, num dado dia, após 10 anos de guerra, encontram um enorme cavalo de madeira estacionado às portas da vossa cidade. Não se esqueçam de ter em conta que esse cavalo é tão grande que, no mínimo dos mínimos, cabem lá dentro dez homens. Ao lado dele está um homem que vos assegura, repetidamente, que é totalmente seguro levarem um tal prodígio para o interior das muralhas da cidade. O que fariam?

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A história de Floris e Brancaflor parece ter sido uma das mais populares na Idade Média, com os seus amores a serem até imortalizados em várias outras obras. Mas se nessa obra o episódio dos confrontos de xadrez entre Floris e o guarda da torre que aprisiona Brancaflor, representado na imagem acima, até tem uma maior importância, existe uma referência na trama que, para os amantes dos antigos mitos, não poderá deixar de ser mencionada. Quando Brancaflor é vendida por dois mercadores, a sua beleza era tal que eles mereceram incontáveis recompensas em troca, uma das quais um copo de valor incalculável, assim descrito numa das versões do poema:

 

Vulcano tinha feito este copo, e nele tinha representado como Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, tinha raptado Helena, e foi perseguido pelo raivoso Menelau, senhor de Helena, juntamente com o seu irmão Agamémnon, ao comando de um poderoso exército; e como os Gregos cercaram e atacaram a cidade de Tróia, que os Troianos defenderam, e quando a cidade foi tomada Eneias trouxe o copo e deu-o ao irmão da sua amada Lavínia.

 

São diversas as questões que este invulgar copo nos pode suscitar, mas ele é, mais que tudo o resto, uma recordação dos mitos de Tróia em plena Idade Média. É uma invenção completamente medieval, até porque normalmente Eneias escapa da cidade em chamas apenas com o pai ás costas e o filho pela mão, mas não deixa de ser um elemento que, na história deste Floris e da sua Brancaflor, nos remete para conquistas de outros tempos.

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Euplanes era um menino de Epidauro que, aparentemente, sofria de pedras nos rins. Com vista à solução do seu problema dormiu num templo de Apolo. Nessa noite o deus apareceu-lhe em sonhos e perguntou-lhe "Euplanes, o que me dás se eu te ajudar?", ao que o rapaz respondeu "dez dados!" Inesperadamente, o deus riu-se e disse-lhe que o seu problema seria resolvido. Na manhã seguinte o menino saiu do templo e foi curado.

 

Esta história é mencionada numa gravação presente num templo do deus Apolo. O seu elemento mais curioso é o facto do deus se rir quando confrontado com a oferta do menino. Os "dez dados" aqui oferecidos são o equivalente a uma criança dos nossos dias abordar um médico e lhe dizer que em troca de uma cura lhe dava dez brinquedos; é uma oferta, sim, mas presume-se que nem o deus nem um médico tenham qualquer uso real para ela. E, ainda assim, a compaixão divina falou mais alto e curou a criança - será que um médico dos nossos dias também faria o mesmo?

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Muito pouco sabemos sobre a figura de Teômbroto, que apenas no chegou nas linhas da Cidade de Deus de Santo Agostinho. Porém, essa ténue referência acaba por ser tão invulgar que achámos que a deveríamos recordar por cá.

 

É-nos então relatado que este Teômbroto leu um livro de Platão "sobre a imortalidade da alma"; gostando do que viu por lá, nessa ânsia de passar logo para uma vida que lhe parecia melhor que a sua, atirou-se deliberadamente do topo de uma parede e morreu.

 

Se existem referências à alma em diversos escritos platónicos, aquele mais focado no tema será certamente o Fédon. Terá sido esse o tratado lido pelo interveniente desta pequena história? Não podemos ter uma certeza absoluta, mas é inegável que, qualquer que tenha sido, o marcou tão profundamente que o fez desejar mais a morte do que a vida que tinha... e isto, de uma certa forma, mostra-nos a visão que a Antiguidade tinha face a Platão, aquela de um mestre quase incontestado que até parecia saber o que nos esperava a todos após o fim da nossa existência terrena.

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Amadis de Gaula foi provavelmente o mais famoso de todos os romances de cavalaria produzidos na Península Ibérica. Resumi-lo num punhado de frases soar-nos-ia redutor, mas podemos referir que se trata da história da belíssima Oriana e das muitas aventuras pelas quais Amadis passou em sua honra. E é, de facto, sobre uma dessas aventuras em que hoje nos focamos. Num dado momento Amadis foi capturado por Briolanja, que o amava e que dele desejava ter um filho. Mas será que o herói cedeu às tentações da carne, gerando um rebento com ela?

 

A sua amada Oriana pensou que sim, mas o texto do romance não deixa essa informação totalmente clara. Pelo menos uma das edições a que tivemos acesso parece dar a entender que, originalmente, nada de errado se tinha passado entre as duas personagens, mas também acrescenta que o episódio em questão foi alterado por ordem do "Infante Dom Afonso de Portugal" (i.e. o filho de Dom Dinis), de forma a dar uma prole compassiva à solitária Briolanja.

Isto é possível de se fazer porque, quase certamente (que nestas coisas nunca podemos ter uma certeza absoluta), Amadis, Oriana e Briolanja se tratavam de personagens ficcionais. Nunca tiveram uma existência fora do campo da ficção, e como tal podem ter as suas existências alteradas como melhor se encaixar na trama. Se um dado lhes quisesse, por exemplo, dar 20 filhos e encenar uma batalha de todos eles contra o próprio pai, nada o impediria de o fazer.

 

Voltemos então à Antiguidade, a uma figura como Ulisses. Será que teve filhos de Circe e de Calipso? Por muito que os Poemas Homéricos nos possam levar a uma resposta em particular, absolutamente nada impediria autores posteriores de alterar a história, para que esta se inserisse melhor nos seus objectivos individuais. Desde que respeitassem algumas regras - por exemplo, a virgindade perpétua de Ártemis ou de Atena não deveria ser violada, e seria estranha a existência de um Zeus totalmente fiel à esposa - podiam fazer tudo o que desejassem com as personagens que tinham em mãos. Assim se compreendem as divergências de informação que se encontram em determinadas fontes; uma figura como Príamo podia ter tantos filhos e filhas como necessário para a história. E, nesse sentido, não existe uma resposta certa ou errada ao número e identidade de uma descendência - Amadis, como Ulisses, Édipo, ou qualquer outra figura ficcional, podem ter (e até deixar de ter) filhos e filhas, em número tão grande e diverso como a trama requeira. E, mesmo assim, Oriana e Penélope, como tantas outras heroínas, só seriam traídas se os autores assim o desejassem. Bastaria torná-lo real com palavras ditas ou escritas.

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Itomnica queria ter uma filha e foi a um templo do deus Apolo. Enquanto lá dormia, como era hábito nessa altura, o deus apareceu-lhe em sonhos e concedeu-lhe o seu desejo - Itomnica iria conceber uma filha, mas o deus também se ofereceu para lhe dar tudo o que ela desejasse. A peticionária disse que não desejava mais nada, e pouco depois concebeu uma filha no seu ventre.

Toda esta história acabaria por aqui, não fosse o facto de, em seguida, Itomnica ter ficado grávida durante mais de três anos, mas sem que alguma vez desse à luz. Preocupada com a situação, voltou ao templo de Apolo e o deus perguntou-lhe se não tinha obtido tudo aquilo que desejava. E sim, ela efectivamente tinha concebido uma menina, mas também gostaria de a dar à luz e trazer à vida, algo que o próprio deus se apressou a conceder-lhe; assim, quando se tornou manhã e Itomnica saiu do templo, deu finalmente à luz a sua tão desejada filha!

 

Este pequeno mito aparece mencionado numa gravação presente num templo do deus Apolo. Demonstra-nos, acima de tudo, o carácter frequentemente enganador dos deuses gregos, bem como a sempre-necessária prudência para os momentos em que se lidava com as entidades divinas.

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