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Um dos aspectos mais curiosos de se tentar estudar Mitologia Comparativa é o facto de, uma e outra vez, nos depararmos com alguns elementos que, apesar de pouco vulgares, transcendem culturas de uma forma difícil de explicar. Por exemplo, há algum tempo uma idosa contou-nos uma história que a avó dela lhe tinha contado, de que já falámos aqui. Sucintamente, apresentava um homem que Deus transportou para a Lua como punição por um pecado repetido. Poderia parecer uma ideia estranha, mas não é única.

Wu Gang, um exemplo na arte nipónica

Quase do outro lado do mundo, os Chineses ainda hoje contam a história de Wu Gang, um camponês que foi transportado para a Lua e perpetuamente destinado a tentar cortar uma árvore, que tornava a crescer por magia a cada nova noite. É uma espécie de "Sísifo Chinês", como lhe ouvimos chamar em diversas obras ocidentais.

Qual foi o seu crime? As várias versões a que tivemos acesso divergem nas razões para a sua punição, mas parecem ter um elemento em comum - que esta terá advindo do facto de Wu Gang nunca levar os empreendimentos que planeava até ao seu final. E, nessa sequência, que ele tenha sido punido com a atribuição de uma tarefa impossível de finalizar faz todo o sentido.

 

Resta, então, uma questão - será que existe alguma ligação entre a história portuguesa que nos foi contada e a de Wu Gang? Quase certamente que não, mas esse é um dos grandes mistérios da Mitologia Comparativa, o porquê de algumas histórias, aparentemente similares mas sem uma fonte comum, surgirem em culturas e contextos completamente diferentes.

 

[Editado: Recentemente, o Sapo colocou este artigo em destaque, aqui. Deixamos o nosso agradecimento, e se esse destaque contribuir para uma só pessoa adicional conhecer esta história e a passar a outras, já valeu a pena deixá-la escrita por cá!]

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Estas linhas de hoje não poderão começar sem se abordar um pequeno problema - será que o Buda realmente existiu? E, mesmo que a resposta a essa pergunta seja positiva, onde é que acaba a sua historicidade e começa a lenda?

 

Conta-nos esta história que o homem que viria a ficar conhecido como "Buda" foi príncipe de um reino muito rico, e os seus pais sempre tentaram que tivesse todas as melhores coisas, pois já lhes tinha sido profetizado o seu destino (que, diga-se, pareciam querer evitar). Um dia, enquanto a sua carruagem era conduzida por uma povoação, viu algo que nunca tinha visto até então - um idoso. Pouco depois, numa segunda viagem, viu um doente. Numa terceira, um homem morto, e a realidade dessas sucessivas descobertas levou-o à contemplação de um problema - de que lhe valiam todas as coisas que tinha, se acabaria por morrer mais cedo ou mais tarde?

Alguns dias depois viu um asceta, e essa nova ocorrência levou-o a decidir despojar-se de tudo o que tinha e ir para uma floresta meditar no seu problema. Uma e outra vez os seus pais, a esposa e o próprio filho, aqueles que conhecia, tentaram-no fazer desistir dessa ideia, muitas vezes até lhe apontando alternativas, mas não conseguiram demovê-lo. Procurou quem o pudesse ajudar a alcançar o seu objectivo, mas nenhum professor ou colega lhe pôde ensinar o que ele queria aprender. Então, numa determinada altura, decidiu sentar-se em baixo de uma árvore e não se mover do local até encontrar a resposta que procurava.

Buda e Mara

Na imagem acima pode ser visto esse momento, de algum relevo na arte budista, em que Mara, a personificação da morte, e os seus demónios tentam perturbar aquele que meditava. Tentaram assustá-lo, seduzi-lo pelos prazeres da carne, e outras coisas semelhantes, mas durante toda a sua meditação mostrou-se imperturbável. E depois, passadas sete semanas, encontrou a resposta que procurava, tornando-se Buda, i.e. "O Iluminado".

 

As crenças atribuídas ao Budismo nascem depois deste episódio, e tentam, de uma certa forma, que o crente consiga compreender as realidades que o Buda defrontou por si mesmo. Ele nunca é visto como uma divindade, nem as suas palavras como cânone religioso, mas convida é que as suas mensagens e ensinamentos sejam contemplados por quem o quiser fazer. E isso leva a uma questão - na ausência de uma divindade tuteral, será o Budismo uma religião ou um sistema de crenças? Essa é uma resposta que já caberá ao leitor...

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Pássaro Anzu

Preparados para o primeiro mito deste mês temático? Falar de este mito tem até algum significado extra para nós, pelo facto de ser um dos mais antigos que já passou por este espaço. A versão a que tivemos acesso, apesar de fragmentária, tem cerca de 4100 anos e permite-nos conhecer parte da história de uma figura suméria chamada Lugalbanda. Vamos a isso?

 

Lugalbanda era um soldado do Rei Enmerkar. Adoecendo durante uma guerra, foi levado por alguns companheiros para uma caverna numa montanha, onde se esperava que vivesse ou morresse. Após rezar a três deuses recuperou a sua saúde. Alguns dias depois capturou três animais e, num sonho, foi-lhe comunicado que os sacrificasse aos deuses. O que acontecia em seguida está parcialmente perdido, mas a história do herói ainda não acabou para nós.

 

Algum tempo depois Lugalbanda ainda estava a viver nas montanhas. Num dado dia encontrou uma cria do Pássaro Anzu [uma criatura famosa dos mitos suméricos, uma grande águia com cabeça de leão, que pode ser vista na imagem anterior], que alimentou e de quem cuidou durante algum tempo. Quando o respectivo Pássaro Anzu voltou, ficou tão feliz com os actos do herói que decidiu recompensá-lo com um dom semelhante à super-velocidade, mas que ele não deveria divulgar a ninguém.

Voltando então à civilização, Lugalbanda reencontrou os seus companheiros do exército, que ainda estavam a tentar atacar a mesma cidade. Face à lentidão do confronto, o Rei Enmerkar decidiu procurar o auxílio da deusa Inana [i.e. Ishtar], enviando o herói em busca dela. A deusa respondeu-lhe com uma parábola, mas o resto da história está perdido.

 

Pouco mais sabemos sobre este Lugalbanda, com excepção de uma informação um tanto ou quanto curiosa - no Épico de Gilgamesh, o famoso herói refere-se a si mesmo como "filho de Lugalbanda" (e de uma deusa). É provável que esse matrimónio tomasse lugar depois dos episódios que nos chegaram nas fontes da Suméria, mas é pouco mais do que uma suposição. Mas, pelo menos, este mito não foi totalmente perdido nas areias dos tempos...

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Hoje, falamos de parte da história de Sun Wukong, uma figura pouco conhecida em Portugal mas muito famosa na China e em diversos outros países orientais. É ele um dos heróis da novela chinesa Jornada ao Oeste, pelo que seria difícil contar todas as suas aventuras num só punhado de linhas. Assim, relatamos aqui apenas as suas primeiras aventuras, na versão que este texto nos preserva.

 

Sun Wukong poderia ser um macaco como os outros, mas nasceu de uma pedra mística na Montanha das Flores e Frutas. Pouco depois, encontrou-se com outros macacos e, juntos, descobriram que existia uma caverna secreta por detrás de uma cascata. Inicialmente não conseguiram descobrir como lhe aceder, pelo que decidiram honrar como seu rei aquele que conseguisse fazê-lo. Foi o macaco que nasceu da pedra mágica que o conseguiu fazer, acabando por receber tão grande honra.

Tendo descoberto esse recanto secreto, os macacos divertiram-se em segurança durante muito tempo. Mas, um dia, aperceberam-se de um problema - por muita diversão que tivessem, um dia acabariam por morrer. E essa foi, para eles como para qualquer um de nós, uma ideia assustadora.

Face ao problema, o macaco que nasceu da pedra decidiu partir em busca da imortalidade. Encontrou o sábio Bodhi, que lhe ensinou diversas artes mágicas e técnicas secretas. E foi ele que primeiro lhe deu o nome de Sun Wukong (que significa algo como "Macaco alerta para o nada", possivelmente em honra dos ensinamentos que teve, mas discutir crenças budistas escapa ao nosso objectivo).

 

Depois disto, o Rei Macaco teve muitas outras aventuras, mas para as conhecerem fica a sugestão de que leiam a Jornada ao Oeste, uma obra bastante divertida. Não parece existir em Português, mas existem diversas traduções para o Inglês. E, quanto mais não seja, depois poderão gabar-se de ter lido a obra literária que inspirou a primeira temporada do Dragon Ball - de facto, sabiam que Son Goku é o nome nipónico dado a esta mesma personagem?!

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O problema da origem das sereias (ou sirenas, se preferirmos ignorar uma questão de nomes) é um pouco diferente daquele que abordámos relativamente às fadas. Se, nesse segundo caso, é possível identificar uma altura em que as fadas ainda não existiam e um momento em que passam a existir, já as primeiras, aqueles seres que têm uma parte superior humana e uma parte inferior de peixe, têm uma antiguidade enorme. Uma das mais antigas referências surge através do deus Dagon (ou Dagan), que supostamente trouxe o conhecimento da agricultura aos habitantes da antiga Mesopotâmia, e que foi frequentemente representado assim:

O deus Dagon

Tem barba e um chapéu característico da época, mas o seu elemento mais notável é, como deverá ser óbvio, o facto de ter a forma de um peixe da cintura para baixo. Visto que este é um deus que parece preceder os próprios mitos dos Gregos, somos então levados a perguntar qual terá sido a sua origem. É natural que tenha nascido numa civilização com especial ligação aos rios ou mares (como, evidentemente, o era a da Mesopotâmia), mas, fora isso, pouco podemos afirmar sobre como surgiu a ideia da existência de seres com estes - mesmo nas poucas obras em que Oannes (i.e. outro nome de Dagon) é referido, apenas é dito que, num dado dia,  surgiu das águas, instruiu as populações e depois desapareceu tão misteriosamente como antes tinha aparecido.

 

Será que, antes desta figura divina, já existiam outras criaturas semelhantes? É possível, mas nunca certo, que sim. O que sabemos, no entanto, é que ao longo dos séculos, aqui e ali, foram surgindo incontáveis referências a outros seres metade-peixe, metade-humano, sempre com uma parte superior humana (salvo excepções satíricas).

Sereio ao contrário

Essas referências são difusas e nem sempre têm fontes comuns, ou seja, as "sereias" dos Gregos, dos Chineses, ou a de Hans Christian Andersen não têm, obrigatoriamente, a mesma origem que o antigo Dagon. Podiam ter pele branca, castanha, amarelada, ou de qualquer outra cor. Terá sido provavelmente face ao desconhecimento de onde surgiram que, mais tarde, também foram aparecendo múltiplas tentativas de as explicar - por exemplo, terão os navegadores sido inspirados por criaturas marinhas como os manatins? Ou terão, nas suas viagens e motivados por um cansaço extremo, imaginado as mulheres que já há muito não viam? É sempre possível que sim, mas a origem da primeira criatura com esta forma está hoje tão afastada do nosso tempo que parece ter sido irremediavelmente perdida. E, como tal, uma explicação mais fiável e concreta do que a apresentada aqui é imprudente, excepto se quiserem construir castelos nas núvens...

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Muito sucintamente, Jiraiya é uma figura famosa do folclore japonês. De facto, é tão famosa que o nome do herói é frequentemente reaproveitado em séries nipónicas, de que Naruto poderá até ser um dos exemplos mais presentes nos nossos dias. Para conhecerem um pouco mais sobre este herói poderão ver o filme apresentado abaixo, datado de 1921.

 

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Maria Kannon

Na imagem podem ver Maria Kannon, uma divindade nipónica particularmente famosa pela sua relação com Santa Maria numa altura em que o Cristianismo estava proíbido no Japão (note-se o estilo oriental, mas com uma pequena cruz na mão direita). São várias as semelhanças entre as duas figuras religiosas, o que certamente terá contribuído para a sua associação.

 

Infelizmente, são poucas as outras histórias que poderíamos contar sobre os deuses dos mitos japoneses, mas no seguinte artigo poderão ler mais sobre alguns dos principais deuses da mitologia japonesa.

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