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Face de Endovélico

A grande maioria dos mitos que vão sendo contados por cá provêm da Grécia Antiga ou do tempo dos Romanos. Temos acesso a esse conhecimento porque os autores da altura decidiram deixar-nos, por escrito, algumas das histórias que envolviam cada uma dessas divindades e heróis. Contudo, o caso de Endovélico é significativamente diferente.

 

Endovélico é conhecido como o mais popular dos deuses (ou heróis divinizados?) da Península Ibérica. Mas, mesmo se tratando de uma importante divindade nativa, nenhum autor grego ou romano nos fala dele, nem nenhum autor ibérico a ele se refere com informação credível. E, na verdade, nada saberíamos hoje sobre ele não fosse o facto de terem sido encontrados diversos ex-votos com o seu nome, como aquele que pode ser visto na imagem acima, juntamente com uma cabeça que se supõe ser de Endovélico. A pouca informação que temos (ver, por exemplo, aqui um interessante artigo de José D'Encarnação que a resume) permite-nos perceber alguns dos seus contornos e poderes, mas nada nos diz sobre alguma possível história real que possamos associar a esta figura ou ao seu santuário de São Miguel da Mota.

 

Nesse sentido, se Endovélico até é uma divindade de uma importância inegável na cultura ibérica, procurar um mito associado a ele é uma tarefa impossível. Nenhum autor nos parece ter deixado a sua história real, sendo ele, para nós, pouco mais que um mero nome de um passado há muito esquecido.

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Há vários anos atrás foi-nos posta uma pergunta que poderá fazer sorrir - como é que os heróis homéricos sabiam as ascendências uns dos outros? Claro que na Ilíada existem os mais diversos momentos em que as paternidades e eventos de um e outro herói são mencionadas, mas como podiam eles saber isso uns dos outros? Será que, como uma amiga costumava dizer, "paravam para conversar"?

 

Não temos, naturalmente, uma resposta totalmente fidedigna para dar, até por ser uma questão derivada de uma obra de ficção e uma convenção de poemas épicos, mas numa obra chinesa, 西遊補, aparece uma sequência que neste contexto merece ser trazida à luz. Dois combatentes estão em pleno combate, a trocar os mais diversos golpes, quando um deles diz ao outro:

Espera! Se eu não te falar sobre a minha família, quando eu te matar e te tornares um fantasma irás continuar a pensar que eu sou apenas um pequeno general sem nome. Mas permite-me contar-te: eu, o Rei Pramit, sou nem mais nem menos que um descendente directo do Macaco Sun, o Grande Sábio Igual ao Céu, que causou grande confusão no Céu.

Será que monólogos como estes, de pura vangloriação, também tinham lugar, muitas vezes de forma implícita, no imaginário do poeta da Ilíada? É bastante possível que sim, mesmo que se pense que nunca tenham acontecido em confrontos bélicos mais reais.

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Capa do livro

De entre as muitas pesquisas que foram aqui feitas ao longo dos anos poucas nos intrigaram tanto como o caso das muitas pessoas que, por uma razão desconhecida, decidiram procurar pela obra O Estrangeiro, de Albert Camus. Isso, naturalmente, levou-nos a explorá-la, mas nada nela nos parece remeter directamente para a literatura ou os mitos da Antiguidade. É, essencialmente, uma novela/romance em que um dado homem tem uma vida completamente normal, mata alguém (de forma acidental?), e depois tem de lidar com as consequências dessa acção.

Assim, desconhecemos o porquê de tanta gente ter procurado por essa obra por cá; seria pela confusão entre a Literatura Clássica (i.e. da Antiguidade) e os clássicos da literatura, a que a obra de Camus quase certamente pertence?

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Artur e a espada

Há alguns dias foi cá deixada esta pergunta - "[Será que] o Rei Artur existiu mesmo?"

É uma boa questão, mas a grande dificuldade em responder a ela passa por definir aquilo que se considera uma existência do Rei Artur. Por exemplo, um episódio como o da espada presa numa pedra, mostrado na imagem acima numa versão da Disney, apesar de ser muito famoso dificilmente terá sido real. Se removermos esse episódio, certamente fictício, da vida do herói, abre-se a possibilidade de que outros também possam ter sido mera ficção, o que, por sua vez, nos transporta para uma questão adicional - se o Rei Artur existiu, o que podemos verdadeiramente saber sobre ele?

 

É esse o grande cerne da questão. É possível que um monarca chamado Artur até tenha existido, num dado momento da história da Grã-Bretanha, mas não temos forma de distinguir os seus feitos reais daqueles que foram tornados lendários.

Para dar um exemplo concreto, na Vida de Merlim, de Geoffrey de Monmouth (ou, se preferirem, Godofredo de Monmouth), é dito que Uther fugiu para a Grã-Bretanha quando "Constante", supostamente seu irmão, foi traído (i.e. Constante II, ou seja, por volta de 411 d.C.). Sabendo que este Uther é o pai de Artur, isso permite-nos colocar a vida do herói que procuramos no século V d.C., mas somos rapidamente levados para elementos lendários quando é acrescentado que foi ele que derrotou o Procurador Lúcio Hibério (ou Tibério), uma figura quase certamente fictícia. Ou seja, até num mero punhado de linhas de um mesmo documento a potencial realidade e a ficção por detrás da figura de Artur fundem-se numa só, o que torna bastante difícil traçar onde acaba uma e começa a outra; de facto, o problema até se complica mais se tivermos em conta que o mesmo autor, na sua História dos Reis da Bretanha, também diz que Artur abandonou o trono, por ter sido ferido mortalmente em combate, em 542 d.C. - cerca de 130 anos depois da fuga do seu pai para a Grã-Bretanha, o que dá uma idade prodigiosa a pelo menos um deles!

 

Por isso, será que o Rei Artur existiu mesmo? É possível que sim, mas face aos dados que temos nos nossos dias é-nos difícil reconhecer onde acaba uma possível figura histórica e onde começa a sua lenda. O Artur lendário pode ser encontrado nas mais diversas histórias da Idade Média, mas a figura potencialmente real por detrás dele parece estar, hoje, irremediavelmente perdida.

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Cavalo de Tróia

Hoje, convém começar por assegurar aos leitores que alguém perguntou mesmo isto ali na secção de pesquisa - "O Cavalo de Tróia foi real?" É como quem diz, "será que o Cavalo de Tróia existiu mesmo?"

 

Se quiserem uma resposta simples e rápida, não temos quaisquer provas de uma existência real do Cavalo de Tróia, nem do que lhe aconteceu depois da suposta conquista da cidade (presume-se que tenha ardido no fogo?). Mas, de uma forma mais leve, propomos um exercício pouco vulgar neste espaço - imaginem que vivem na Tróia de Homero e, num dado dia, após 10 anos de guerra, encontram um enorme cavalo de madeira estacionado às portas da vossa cidade. Não se esqueçam de ter em conta que esse cavalo é tão grande que, no mínimo dos mínimos, cabem lá dentro dez homens. Ao lado dele está um homem que vos assegura, repetidamente, que é totalmente seguro levarem um tal prodígio para o interior das muralhas da cidade. O que fariam?

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Como já dito anteriormente, algumas das questões que os leitores põem ali na secção de pesquisa são tão interessantes que nos deixam a pensar. Por isso, no futuro tentaremos responder a algumas delas. Ontem, por exemplo, um leitor pôs aqui uma potencial questão - [será que] Agamémnon matou a sua filha? A resposta é mais complicada do que poderá parecer à primeira vista.

 

Por um lado, nos Poemas Homéricos e em algumas tragédias é dado a entender que a morte de Ifigénia foi uma das razões para o ódio que Clitemnestra tinha pelo seu marido, levando-a a matá-lo após o final da Guerra de Tróia. Mas, por outro lado, algumas versões mais recentes do mito, e em particular a tragédia Ifigénia na Táurida, dizem que a filha de Agamémnon foi salva pela mesma deusa a quem ia ser sacrificada, tornando-se depois sacerdotista de um dos seus templos.

 

Mas então, será que Agamémnon matou realmente a própria filha? No contexto do mito de Tróia, a resposta mais importante é que ele pensou tê-lo feito. Clitemnestra, Aquiles, e as outras principais personagens da trama também pensaram o mesmo, e é nesse elemento crucial que vão assentando as consequências da sua acção. Mesmo que a filha não tivesse sido sacrificada, o pai demonstrou uma clara e inegável intenção de o fazer - e essa intenção, por si só, é o que condiciona toda a trama futura.

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Máscaras

Outra pesquisa que tem sido feita de uma forma relativamente frequente neste local passa pela "Origem da Comédia". E, na realidade, são poucos os autores da Antiguidade que nos dão informações concretas e fiáveis relativas à origem desse género de ficção. Como tal, não pretenderemos fazer o impossível, mas sim demonstrar a mesma dificuldade que já outros sentiram antes. Vamos, por isso, a um exemplo particularmente curioso.

 

Polidoro Virgílio nasceu nas últimas décadas do século XV. Entre as suas obras conta-se uma obra, hoje com um total de oito livros, chamada De Inventoribus Rerum, em que pretendeu dissertar sobre as origens das coisas. Tem, por exemplo, um capítulo sobre a origem dos deuses, outro sobre a espécie humana, outro sobre os obeliscos egípcios, e assim por diante, todos eles escritos com base em informações que lhe tinham chegado por via de autores e obras da Antiguidade. Relativamente à origem da comédias, escreveu estas linhas sucintas:

"As Comédias começaram numa altura em que os Atenienses ainda não se tinham associado numa cidade. Os jovens desse país, habituados a cantarem versos solenes nos festivais, fizeram-no [i.e. cantaram] nas vilas e nas ruas mais populares para ganharem dinheiro. (...) No entanto, é incerto sobre quem de entre os Gregos as terão criado primeiro."

 

Certamente que existiu um momento de Origem da Comédia, em que esta passou a existir, mas o que as linhas de Polidoro Virgílio nos revelam é precisamente aquilo que poderíamos dizer a um qualquer leitor, e pouco mais - não sabemos como, ou quando, nasceu a Comédia!

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