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Romano desconhecido

Chegaram-nos muitos outros trabalhos da autoria de Claudiano, mas no contexto deste espaço são especialmente relevantes dois deles, a Gigantomaquia e O Rapto de Proserpina. E agrupamo-los numa só menção por sofrerem de um problema essencial - apesar de ambos parecerem extremamente interessantes pelas linhas que nos chegaram também estão incompletos, possivelmente por morte do seu autor.

 

A Gigantomaquia, supostamente, iria falar da guerra em que os gigantes defrontaram os deuses. Em pouco mais de uma centena de versos chega-se ao momento em que Minerva derrota dois deles, surge um pedido de ajuda a Febo Apolo, mas o poema termina nessa altura.

O Rapto de Proserpina contém, de uma forma muito detalhada, as razões pelas quais o deus Plutão decidiu tomar para si uma esposa, e porque escolheu a filha de Ceres. O deus rapta-a, de uma forma belíssima, e leva-a de volta para o seu reino, onde a presença de uma nova rainha é extensamente celebrada. Ceres descobre, posteriormente, que a sua filha foi raptada, parte em busca dela, e... o poema termina, apesar da continuação do mito nos ser bem conhecida de outras fontes.

 

Se Claudiano até representou ambos os mitos de uma forma bela, o facto dos dois poemas se encontrarem incompletos é tão tantalizante como frustrante. Ainda assim, o poema do rapto da filha de Ceres merece ser lido, quanto mais não for pela forma detalhada como trata esse famoso episódio mitológico.

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Mégara no filme da Disney

Mégara é um pequeno poema de autoria desconhecida, mas que alguns estudiosos parecem atribuir a Teócrito. Nele, a esposa de Hércules e a respectiva mãe partilham as dores que sentem na ausência do herói. A primeira fá-lo por este ter morto os próprios filhos, enquanto que a segunda lamenta os temores do passado e as muitas tribulações pelas quais o filho agora passa. É uma pequena construção poética, de pouco mais de uma centena de versos, com um certo charme.

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Constelações no céu

A obra Fenómenos de Arato conta-se provavelmente como uma das mais famosas que nos chegaram sobre os céus nocturnos - a sua popularidade pode até ser facilmente vista se tomarmos em conta que autores como Cícero ou Ovídio a traduziram para Latim! Porém, apesar de referir muitas figuras mitológicas que deram os nomes às diversas constelações, só muito raramente conta as respectivas histórias, limitando-se a aludir-lhes de uma forma que muito pouco nos informa. Ademais, o autor dá algumas informações incorrectas e trata de forma demasiado breve alguns pontos que nos poderão parecer importantes. Por isso, mais do que um livro com algum interesse real para o estudo dos mitos dos gregos e dos latinos, esta é uma obra cuja importância real se parece ter perdido ao longo dos séculos.

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Capa da obra

Também conhecida como Casamento de Filologia e Mercúrio, esta é uma daquelas obras que dá o proverbial "pano para mangas". É particularmente famosa por ter popularizado a ideia das sete artes liberais na Idade Média, ideia esta que já vinha de Marco Varrão, mas poucos parecem ser aqueles que nos nossos dias realmente a lêem. Contudo, essa ausência de leitura é aqui bem justificada... passamos a explicar!

 

Esta obra pode ser dividida em duas partes. A primeira delas, comportando os dois primeiros livros, apresenta o tema como se de um novo mito se tratasse; inspirado pelos casamentos de outros tantos deuses do Olimpo, Mercúrio decide também ele casar, pelo que parte em busca de uma companheira disponível para tal. Falha por três vezes, mas acaba por encontrá-la com a ajuda de Apolo, sendo essa busca, o subsequente casamento e a imortalização de Filologia então descritas, terminando com o momento em que Mercúrio oferece sete servas à sua esposa, i.e. as sete artes liberais. São essas mesmas sete artes as descritas de forma alongada nos restantes livros.

 

Como este breve resumo nos permite antever, existem incontáveis alegorias envolvidas nos nove livros da obra. Se isso não for suficientemente desencorajador para o leitor comum, cada um dos livros encontra-se igualmente repleto de sequências de enorme complexidade; na edição a que tivemos acesso cada um dos livros tem pelo menos uma centena de anotações, sem o auxílio das quais seriam de compreensão quase impossível. Para dar um breve exemplo, numa dada altura é dito que a soma de um dos nomes de Mercúrio tinha um dado valor simbólico; só Hugo Grócio, quase um milénio depois, soube dizer que se tratava de "Thoth" quando escrito em língua grega.

 

Se, por um lado, esta não deixa de ser uma obra importante no desenvolvimento do cânone das sete artes liberais, por outro é igualmente uma que só deve ser lida por aqueles que, por razões que temos dificuldade em compreender, queiram ter contacto com algo realmente desafiante. Não é uma leitura aprazível, mas uma que, frequentemente, fará o leitor sentir-se muito pouco culto, por mais que domine os temas da Antiguidade. Por isso, deve ser completamente evitada pelos leitores comuns, fica o nosso aviso!

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Cartaz do filme "O Nome da Rosa"

É provável que já tenham ouvido falar desta obra, em particular devido ao papel que tem na novela O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Mas, afinal de contas, do que fala ela? Essencialmente, trata-se de um jocoso banquete de casamento, em que um rei convidou as mais diversas figuras bíblicas para participar. Depois, a cada nova acção do rei essas figuras respondem das mais diversas formas. Até aqui não de muito novo, ou particularmente interessante, não fosse o facto dessas acções nos remeterem, de forma disfarçada, para as características e episódios bíblicos de cada uma delas.

 

Vamos a três pequenos exemplos? Numa dada altura são oferecidas novas roupas aos convidados; Jesus toma uma veste com a cor de uma pomba, remetendo-nos para a figura do Espírito Santo. Mais à frente, aos convidados é pedido que reajam de forma contrário à habitual; Caim morre, em vez de matar alguém, numa alusão ao famoso episódio bíblico em que matou o irmão. Finalmente, depois de beber algum vinho Judas trai alguém, numa referência tão óbvia que dispensa maiores apresentações.

 

De uma certa forma, este texto é uma espécie de "quem é quem?" dos textos bíblicos, em que em detrimento de se perguntar "Tem óculos? Tem cabelo castanho? Tem olhos azuis", somos instados a interrogar-nos sobre relações como "Porque razão José corta uma árvore? Que têm Adão e um figo em comum? Porque se senta Pedro próximo de um galo?". Estas são respostas fáceis de dar, para quem conhecer minimamente o cânone bíblico, mas muitas outras das apresentadas indirectamente na obra implicam um conhecimento muito maior das personagens e respectivas históricas. Por isso, por muito que seja uma obra com uma certa piada - como já O Nome da Rosa nos indicava - não é de leitura simples.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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