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Cartaz do filme "O Nome da Rosa"

É provável que já tenham ouvido falar desta obra, em particular devido ao papel que tem na novela O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Mas, afinal de contas, do que fala ela? Essencialmente, trata-se de um jocoso banquete de casamento, em que um rei convidou as mais diversas figuras bíblicas para participar. Depois, a cada nova acção do rei essas figuras respondem das mais diversas formas. Até aqui não de muito novo, ou particularmente interessante, não fosse o facto dessas acções nos remeterem, de forma disfarçada, para as características e episódios bíblicos de cada uma delas.

 

Vamos a três pequenos exemplos? Numa dada altura são oferecidas novas roupas aos convidados; Jesus toma uma veste com a cor de uma pomba, remetendo-nos para a figura do Espírito Santo. Mais à frente, aos convidados é pedido que reajam de forma contrário à habitual; Caim morre, em vez de matar alguém, numa alusão ao famoso episódio bíblico em que matou o irmão. Finalmente, depois de beber algum vinho Judas trai alguém, numa referência tão óbvia que dispensa maiores apresentações.

 

De uma certa forma, este texto é uma espécie de "quem é quem?" dos textos bíblicos, em que em detrimento de se perguntar "Tem óculos? Tem cabelo castanho? Tem olhos azuis", somos instados a interrogar-nos sobre relações como "Porque razão José corta uma árvore? Que têm Adão e um figo em comum? Porque se senta Pedro próximo de um galo?". Estas são respostas fáceis de dar, para quem conhecer minimamente o cânone bíblico, mas muitas outras das apresentadas indirectamente na obra implicam um conhecimento muito maior das personagens e respectivas históricas. Por isso, por muito que seja uma obra com uma certa piada - como já O Nome da Rosa nos indicava - não é de leitura simples.

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O que dizer sobre o poema épico de Lucano que é, entre nós, normalmente conhecido como Farsália? Ficámos um pouco com a ideia de que é uma obra sem heróis e sem vilões, e em que a própria guerra civil é que toma o lugar cimeiro. Tem momentos belíssimos e instantes de horrendos crimes de guerra. Mas, de um ponto de vista dos mitos, existem dois momentos especialmente importantes.

 

No quarto livro, e ao longo de cerca de 80 versos, é-nos recontado detalhadamente o combate entre Hércules e Anteu, a que já uma vez fizemos referência aqui. Podemos estar enganados, mas é provável que se trate da versão mais detalhada que ainda temos para esse episódio mitológico.

 

No nono livro e também em cerca de 80 versos é retratado o mito de Perseu e da Medusa. Nada há de muito especial nessa referência, até porque o mito é sobejamente conhecido, mas o relato contém um punhado de versos de curiosa importância, que nos dizem que, por exemplo, que a deusa Atena, enquanto auxiliava Perseu, evitou olhar para a Medusa - o que lhe teria acontecido se não o fizesse? Não nos é dito, o que é pena.

 

De um modo geral esta é uma obra... razoável, talvez essa seja a melhor palavra para a definir. Muito poucos serão aqueles que terão interesse nela, com excepção dos que procurem mais informação sobre a guerra civil romana, mas mesmo assim há que deixar um ponto crucial - a obra está incompleta, terminando com César a escapar do Egipto.

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As Vidas Paralelas de Plutarco são, essencialmente, um conjunto de biografias de personagens lendárias e histórias, em que Plutarco apresentava uma figura grega (como Teseu) e uma figura romana (como Rómulo), a que se seguia uma comparação entre ambas. São opostos Licurgo a Numa Pompílio, Péricles a Fábio Máximo, ou até Alexandre Magno a Júlio César, entre muitos outros, numa espécie de antigo "qual dos dois era o melhor". Porém, mais do que por essas comparações, esta obra interessa é pelas próprias biografias individuais, desde personagens lendárias até figuras indisputavelmente reais. É, nesse sentido, uma obra de uma gigantesca importância para todos aqueles que se interessem pelas vidas e obras de algumas das mais importantes figuras da Antiguidade.

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Na religião do Antigo Egipto muitas eram as coisas que tomavam lugar após a morte. A pesagem da ka (ou do coração) de um defunto, que não poderia exceder o peso de uma pena, é provavelmente uma das mais famosas para os leitores comuns, mas evidentemente que não era a única.

De facto, uma das mais interessantes era o defunto ter de passar por um período em que fazia uma "confissão negativa" dos seus erros, ou seja, contrariamente ao que fazemos hoje, em que na religião de Jesus Cristo vamos a um padre e dizemos o que fizemos de mal, este processo passava por declarar, de uma espécie de lista, um conjunto de erros dos quais não somos culpados. No Papiro de Ani estas eram 42 cláusulas, que deveriam ser declaradas a Maat, deusa da justiça. Mas em que consistiam?

 

No seu âmago, passavam por negar roubos, violência (assassinatos, etc.), a disseminação de más palavras (mentiras, feitiços, enganos, difamações, etc.), ou traições amorosas. Mas entre elas também se contavam afirmações mais inesperadas, como "não fiz ninguém chorar", "não comi corações", "não escutei o que não devia", "não me zanguei sem razão", "não actuei com pressa indevida", "não falei demais", "não falei alto demais" ou "não fui arrogante".

 

Curioso é o facto de estas afirmações terem alguma semelhança com os "10 Mandamentos" do Judaísmo e do Cristianismo, não só pela forma negativa de algumas cláusulas ("Não matarás", "não matarás", "não cobiçarás a mulher alheia", etc.), mas pela própria natureza dos seus conteúdos. Até podem ter uma enorme divergência - as recomendações dos mandamentos, antes dos factos ocorrerem versus a confissão dos mesmos, após tomarem lugar - mas é provável, até tendo em conta toda a história de Moisés, que estas regras judaicas se tenham baseado, de alguma forma, em conteúdos egípcios pré-existentes.

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Esta obra de Cornuto aponta, essencialmente, os mitos dos deuses através das suas etimologias e interpretações simbólicas. Porém, recorre frequentemente a elementos muito forçados, que dificilmente estariam em conta nas criações originais. Para dar um pequeno exemplo, Urano é referido como tendo obtido esse nome por ser o limite superior ("ouros anô") de tudo o que existe; claro que existe uma semelhança notável entre o nome do deus e essa expressão, mas até que ponto era essa semelhança de vocábulos intencional? Não sabemos - e é essa a grande dificuldade desta obra, não podermos ter uma completa consciência de até que ponto a informação que nos dá é credível.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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