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Intitulada, no seu original, Mythos: A Retelling of the Myths of Ancient Greece, já não era uma obra particularmente notável, mas nesta sua tradução portuguesa ainda se tornou menos boa. É, de certa forma, uma situação caricata, pelo que convém justificar um pouco mais.

 

A obra original apresentava, essencialmente, uma adaptação dos principais mitos gregos, com algumas inovações, diálogos mais modernos e algumas curiosidades. Porém, quem a traduziu para Português parece ter tido em conta única e exclusivamente o que o texto original dizia, preocupando-se mais em traduzir as palavras do que o seu sentido, o que, em alguns casos, levou a um texto mais pobre que o original inglês, e em que algumas afirmações até parecem fazer pouco sentido. Recordo-me, só para dar um exemplo, de um momento em que é referido "o poder do urânio", mas a expressão foi simplesmente traduzida do original, perdendo-se um trocadilho etimológico que o autor tinha feito com o nome do deus.

 

Ao mesmo tempo, o original tinha pelo menos dois recursos valiosos - alguns interessantes apêndices da parte do autor, bem como algumas belíssimas ilustrações de conteúdos mitológicos - mas ambos ficaram de fora da edição portuguesa. É, por isso, uma tradução indubitavelmente inferior à obra original.

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Enquanto Febo os montes acendia
Do céu com luminosa claridade,
Por conservar illesa a castidade
Na caça o tempo Délia despendia.

Vénus, que então de furto descendia
Por captivar de Anquises a vontade,
Vendo Diana em tanta honestidade,
Quase zombando dela, lhe dizia:

«Tu vás com tuas redes na espessura
Os fugitivos cervos enredando;
Mas as minhas enredam o sentido.»

«Melhor é –respondia a deusa pura–
Nas redes leves cervos ir tomando,
Que tomar-te a ti nelas teu marido.»

 

(Soneto CCLXXXI)

Deixámos este poema para último lugar pelo simples facto de fazer, mesmo no seu final, referência a um momento muito famoso dos poemas de Homero, aquele em que Afrodite foi apanhada a trair o seu marido com Ares.

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Diana prateada, esclarecida
Com a luz que do claro Febo ardente,
Por ser de natureza transparente,
Em si, como em espelho, reluzia,

Cem mil milhões de graças lhe influía,
Quando me apareceu o excelente
Raio de vosso aspecto, diferente
Em graça e em amor do que sohia.

Eu vendo-me tão cheio de favores,
E tão propinquo a ser de todo vosso,
Louvei a hora clara, e a noite escura,

Pois nela destes cor a meus amores:
Donde collijo claro que não posso
De dia para vós já ter ventura.

 

(Soneto CCLXXX)

Outro poema em que os sentimentos do sujeito poético se confundem com as ideias de um mito.

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Datado do século XVI, este livro foi escrito por um letrado de Florença. O seu nome não é totalmente claro, variando de algumas formas entre edições, mas naquela a que tivemos acesso surge como "Giovanni Battista Gelli".

Imagem de Circe

Mas de que trata este livro entitulado Circe? Essencialmente, é uma expansão da ideia presente num tratado da Moralia plutarquiana, em que Ulisses falava com um ser humano que a famosa feitiçeira tinha transformado em porco. A mesma ideia é aqui expandida apresentado vários outros animais, que o herói homérico tenta, sem sucesso, convencer a voltar à forma humana. Apesar do quadro invulgar, tratam-se de vários pequenos diálogos sobre a forma como os animais são, aqui se argumenta, superiores aos seres humanos. Poderia pensar-se que um pescador transformado em ostra, ou um médico tornado cobra, podiam estar insatisfeitos com as suas transformações, mas dizem-nos, aqui e de forma bem justificada, o porquê de preferirem essas novas vidas às suas anteriores. Se também nós concordamos com os seus argumentos, bem, isso é questão de se ler a obra e pensar nos vários casos apresentados.

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Levantai, minhas Tágides, a frente,
Deixando o Tejo ás sombras nemorosas;
Dourai o vale umbroso, as frescas rosas,
E o monte com as árvores frondente.

Fique de vós um pouco o rio ausente,
Cessem agora as liras numerosas,
Cesse vosso lavor, Ninfas formosas,
Cesse da fonte vossa a grã corrente.

Vinde a ver a Teodósio grande e claro,
A quem está oferecendo maior canto
Na cítara dourada o louro Apolo.

Minerva do saber dá-lhe o dom raro,
Palas lhe dá o valor de mais espanto,
E a Fama o leva já de polo a polo.

 

(Soneto CCXXVII)

Será que as Tágides aceitaram este convite?

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Este espaço é da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas.
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