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Uma Moura Encantada

Esta tese de doutoramento, da autoria de Maria Manuela Neves Casinha Nova e defendida em 2013, tem um duplo interesse para os amantes dos mitos e lendas nacionais. Apesar de se referir somente a produções algarvias, algumas das quais inéditas até então, estuda os seus vectores essenciais num primeiro volume e apresenta os seus relatos mais directamente num segundo.

 

Os dois volumes desta tese podem ser encontrados aqui, e são uma leitura inesperada para todos aqueles que têm interesse nas lendas de Portugal.

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Por vezes é interessante explorar as pesquisas que as pessoas fazem neste espaço. Há alguns dias alguém no Brasil procurou aqui por "exemplos de mitos urbanos"; raramente nos focamos nesse tema, até porque tornaria ainda mais infindável a nossa busca, mas é curioso constatar que até existem estudos que relacionam os mitos urbanos da Antiguidade com os dos nossos dias. Apenas para dar um único exemplo, poderá ser consultado o artigo De Legendis Urbis: Modern Legends in Ancient Rome, de Bill Ellis.

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Cavaleiros e dama

Hoje, trazemos cá dois livros que, nos nossos dias, são muito pouco lidos, apesar de estarem disponíveis online gratuitamente.

 

A Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros, é, como vários livros já cá discutidos anteriormente, um romance de cavalaria. E, nesse contexto, é uma produção pouco digna de nota neste espaço, não fosse o facto do titular Clarimundo ser apresentado como um ascendente, quase certamente ficcional, do Conde Dom Henrique, pai do nosso primeiro rei, Afonso Henriques. Continua, por isso, uma tradição que já vem dos tempos de Virgílio e que fazia descender de figuras ficcionais notáveis algumas personagens famosas da história europeia.

 

Quanto a Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, já foi considerada um dos quatro grandes poemas épicos europeus, como ainda hoje atesta a "Cascata dos Poetas" em Oeiras. Aí, podem ser vistos Homero, Virgílio, Camões e Tasso.

Cascata dos Poetas, em Oeiras

É um épico de finais do século XVI, baseado na história da conquista de Jerusalém durante a Primeira Cruzada. Claro que nos apresenta mais ficção do que realidade, mas muitas das suas sequências não podem deixar de nos relembrar eventos como os dos poemas de Homero e de Virgílio. Além disso, em alguns momentos funde Cristianismo e Paganismo (aqui, quase sempre sob a forma da religião de Maomé), "bom" e "mau", aquela eterna ideia de "nós vs eles", de um modo inesperadamente belo. Fica, por isso, um convite particularmente especial à sua leitura.

 

Sucintamente, ambas estas obras nos apresentam um momento muito particular da reutilização da tradição clássica no século XVI europeu. A forma como o fazem é muito distinta, mas nem por isso menos digna de nota.

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Este é um livro definitivamente intrigante. É-nos contado que ao seu autor foi entregue uma espécie de manuscrito em que estavam contidos alguns dos rituais de uma seita italiana de bruxas; ele traduziu-o e depois publicou-o sob a forma de livro. Não sabemos até que ponto essa suposta história será verdade, havendo quem acredite que sim, mas também quem o negue. De qualquer forma, a resposta é, como quase sempre nestas coisas, uma questão de fé; por isso, devemos é passar ao conteúdo da obra, que pode, essencialmente, ser dividida em duas partes.

 

Na primeira delas, surgem diversos mitos e rituais associados a Aradia (provavelmente uma forma corrompida, ou adaptada, do nome Herodias), que parecem ter tido alguma influência em religiões modernas como a Wicca, e que o autor supostamente retirou do manuscrito a que teve acesso. Na segunda, aparecem depois alguns mitos mais directamente associados à Lua, ou a Diana, em que essas figuras têm um papel preponderante; entre eles encontra-se, por exemplo, um mito de Laverna que até (ainda) poderá ter alguma influência da Antiguidade.

 

De um modo geral, ambas as sequências da obra são igualmente interessantes, já que nos permitem aceder a um conjunto de crenças mágicas e mitológicas pouco conhecidas. Mesmo que, em pior dos casos, até tenham sido inventadas por Charles Leland, fazem sentido e são consistentes com o que se esperaria encontrar em mitos de origem e em rituais mágicos. Por isso, este é um livro muito interessante para quem tiver interesse nos temas em questão; pode ser encontrado gratuitamente online, mas desconhecemos se existe traduzido para Português.

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Como já dito quando escrevemos sobre o "Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo", de Galileu Galilei, existem bastantes livros sobre os quais já ouvimos falar bastante, mas que também raramente lemos. Entre eles conta-se Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

Alice a tomar chá

O que dizer deste texto? Se a sua relação com os mitos da Antiguidade é bastante ténue (por exemplo, uma das personagens é um Grifo, existe um momento em Alice recorda o livro de Latim do irmão, e o facto dos animais falarem até nos poderá levar a pensar nas fábulas atribuídas a Esopo), devemos admitir que é um livro delicioso para as crianças, em muitos momentos até escrito de uma forma que recorda o próprio pensamento dos petizes. Está tão repleto de loucuras como de momentos, uns mais conhecidos que outros, que não podem deixar de nos fazer rir. E, num tempo tão (infelizmente) pautado por smartphones e computadores, porque não ler este livro para, ou com, alguém mais novo? Fica esse convite!

 

A sua sequela, bem como uma edição criada a pensar em crianças mais novas, também têm algum interesse, mas não ultrapassam o charme desta aventura original.

O Gato de Cheshire

E, para terminar, uma curiosidade - conhecem o Gato de Cheshire, que desaparece e aparece quase totalmente? Segundo alguns, a sua loucura poderá dever-se ao facto de quando ele desaparece, cessar totalmente de existir. As implicações filosóficas dessa informação dariam, por si só, para enloquecer qualquer um...

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Há alguns anos atrás uma leitora deste espaço deixou-nos um comentário sobre a relação entre os deuses pagãos e o próprio Deus cristão. Dizia ela, nessa altura, que lhe fazia alguma confusão ir à igreja e pensar que ao venerar Deus estava, de alguma forma, a prestar culto ao Sol. Se o tema não é assim tão simples, se Deus e o Sol (já) não são um só e o mesmo, não nos seria fácil conseguir reduzir a riqueza desse grande tema a um singelo punhado de linhas.

 

Então, porque voltamos agora a esse mesmo assunto? Há algumas semanas passou-nos pelas mãos um livro atribuído a P. Saintyves de título Les saints successeurs des dieux. Parece somente existir em língua francesa, o que poderá dificultar a leitura, mas é uma obra fascinante, provavelmente entre as mais interessantes que já nos passaram pelas mãos. Nela, o autor demonstra que os santos cristãos são, de alguma forma, uma espécie de herdeiros dos múltiplos deuses das religiões ditas pagãs; isto pouco teria de muito inovador, não fosse o facto de também apresentar múltiplos casos em que, estranhamente, os santos têm muito mais de figuras pagãs do que poderíamos sequer sonhar.

 

Claro que ninguém duvida da existência de um Santo António, ou de um São Francisco Xavier, mas como explicar os casos de figuras santificadas em relação às quais sabemos pouco mais do que um mero nome? Ou como explicar que a história de São Josafá seja demasiado semelhante à de Buda? E o que dizer de São Zeus, São Mercúrio e Santa Ninfa, entre outras figuras cujos nomes nos remetem para a antiga religião? São questões como essas, entre muitas outras, que o autor explora nesta interessantíssima obra, que merece evidentemente ser lida por todos aqueles que tenham interesse na influência que as religiões pagãs tiveram no Cristianismo.

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Intitulada, no seu original, Mythos: A Retelling of the Myths of Ancient Greece, já não era uma obra particularmente notável, mas nesta sua tradução portuguesa ainda se tornou menos boa. É, de certa forma, uma situação caricata, pelo que convém justificar um pouco mais.

 

A obra original apresentava, essencialmente, uma adaptação dos principais mitos gregos, com algumas inovações, diálogos mais modernos e algumas curiosidades. Porém, quem a traduziu para Português parece ter tido em conta única e exclusivamente o que o texto original dizia, preocupando-se mais em traduzir as palavras do que o seu sentido, o que, em alguns casos, levou a um texto mais pobre que o original inglês, e em que algumas afirmações até parecem fazer pouco sentido. Recordo-me, só para dar um exemplo, de um momento em que é referido "o poder do urânio", mas a expressão foi simplesmente traduzida do original, perdendo-se um trocadilho etimológico que o autor tinha feito com o nome do deus.

 

Ao mesmo tempo, o original tinha pelo menos dois recursos valiosos - alguns interessantes apêndices da parte do autor, bem como algumas belíssimas ilustrações de conteúdos mitológicos - mas ambos ficaram de fora da edição portuguesa. É, por isso, uma tradução indubitavelmente inferior à obra original.

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