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Gulliver preso pelos Liliputianos

As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, é um daqueles livros que todos parecem conhecer - de filmes, de menções em outras obras, de sátiras na cultura popular, etc. - mas que poucos ainda parecem ler. É, essencialmente, um exemplo satírico daquilo que se costuma chamar "literatura de viagem", e que pode ser definida, de forma muito sucinta, como aquela em que alguém vai viajar e, posteriormente, conta aos seus leitores as coisas - muitas delas completamente estranhas - que foi vendo. Esse elemento é aqui levado ao extremo, com a personagem titular a passar por desventuras completamente inacreditáveis (mas com elementos moralizadores), que ele afirma, jocosamente, que foram completamente reais.

 

Mas, se até existem algumas referências a figuras e eventos da Antiguidade neste livro, em particular no momento em que Gulliver fala com alguns falecidos de esses tempos antigos, devemos é relembrar que este é talvez o mais famoso exemplo de uma tendência que começou nos primeiros séculos da nossa era, com uma obra chamada As Coisas Incríveis Além de Tule (de António Diogenes), sendo que "Tule" era uma ilha que pensava existir-se no ponto mais a norte da Europa (seria a Islândia? Não temos a certeza). Já não nos chegou de forma completa, mas foi um dos livros lidos por Fócio de Constantinopla, que ainda o resumiu na sequência 166 da sua Biblioteca.

Alguns anos mais tarde, outro exemplo particularmente famoso da literatura de viagem é a História Verdadeira, de Luciano, que já continha episódios naturalmente jocosos, e que até poderá ter vindo a inspirar a obra de Jonathan Swift. E, depois, seguiram-se muitas outras ao longo dos séculos...

 

(Se até se poderia levantar uma ressalva de que a Odisseia também é uma obra que contém viagens, há que deixar presente que esses momentos são acessórios face às aventuras de Ulisses, nunca se pretendendo documentar directamente os locais pelos quais o herói foi passando.)

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Hoje, falamos de parte da história de Sun Wukong, uma figura pouco conhecida em Portugal mas muito famosa na China e em diversos outros países orientais. É ele um dos heróis da novela chinesa Jornada ao Oeste, pelo que seria difícil contar todas as suas aventuras num só punhado de linhas. Assim, relatamos aqui apenas as suas primeiras aventuras, na versão que este texto nos preserva.

 

Sun Wukong poderia ser um macaco como os outros, mas nasceu de uma pedra mística na Montanha das Flores e Frutas. Pouco depois, encontrou-se com outros macacos e, juntos, descobriram que existia uma caverna secreta por detrás de uma cascata. Inicialmente não conseguiram descobrir como lhe aceder, pelo que decidiram honrar como seu rei aquele que conseguisse fazê-lo. Foi o macaco que nasceu da pedra mágica que o conseguiu fazer, acabando por receber tão grande honra.

Tendo descoberto esse recanto secreto, os macacos divertiram-se em segurança durante muito tempo. Mas, um dia, aperceberam-se de um problema - por muita diversão que tivessem, um dia acabariam por morrer. E essa foi, para eles como para qualquer um de nós, uma ideia assustadora.

Face ao problema, o macaco que nasceu da pedra decidiu partir em busca da imortalidade. Encontrou o sábio Bodhi, que lhe ensinou diversas artes mágicas e técnicas secretas. E foi ele que primeiro lhe deu o nome de Sun Wukong (que significa algo como "Macaco alerta para o nada", possivelmente em honra dos ensinamentos que teve, mas discutir crenças budistas escapa ao nosso objectivo).

 

Depois disto, o Rei Macaco teve muitas outras aventuras, mas para as conhecerem fica a sugestão de que leiam a Jornada ao Oeste, uma obra bastante divertida. Não parece existir em Português, mas existem diversas traduções para o Inglês. E, quanto mais não seja, depois poderão gabar-se de ter lido a obra literária que inspirou a primeira temporada do Dragon Ball - de facto, sabiam que Son Goku é o nome nipónico dado a esta mesma personagem?!

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Modelo Geocêntrico vs Modelo Heliocêntrico

Como todos nós aprendemos nos tempos de escola, existiu um período de tempo em que as pessoas pensavam que a Terra estava no centro do Universo. Depois apareceu Copérnico, que parece ter sido o primeiro a postular a ideia de que, afinal de contas, no centro do nosso Universo estava era o Sol. Esta comparação dos dois modelos pode ser vista na imagem acima, mas deixa-nos uma questão - afinal de contas, como é que Nicolau Copérnico descobriu isto?

 

A sua obra mais famosa, Da Revolução das Esferas Celestes, não é um texto simples. De facto, em busca de uma resposta à questão anterior encontrámos algumas referências a ela como "o livro que ninguém leu", possivelmente pela complexidade matemática que apresenta. Mas, felizmente para todos nós, uns anos antes o mesmo autor escreveu também um texto conhecido como Pequeno Comentário, em que apresenta a sua teoria de uma forma muito breve e simples.

 

E então, afinal de contas, como chegou Copérnico à sua teoria heliocêntrica? Simplificadamente, pegou nas medições dos muitos autores que o antecediam, como Cláudio Ptolomeu, e acabou por se aperceber de um problema - para esses autores, o movimento das esferas celestes não era uniforme. Em vez disso, os planetas moviam-se de uma forma muito inconsistente, como na imagem seguinte:

Geocentrismo

Em seguida, ele apercebeu-se que, em alternativa, se o Sol estivesse no centro do Universo todo este complexo modelo poderia ser muito simplificado - todas as medições que tinham sido feitas antes continuariam a bater certo, mas com um movimento das esferas celestes muito mais consistente e sucinto, em que todos os planetas se moviam de uma forma exclusivamente circular em torno de um mesmo centro, como pode ser visto na imagem abaixo.

Sistema Solar

Se esta explicação até poderá parecer simples, o que Nicolau Copérnico fez no seu livro Da Revolução das Esferas Celestes foi provar, matematicamente, que existia uma alternativa ao modelo dos Antigos, e que esta permita simplificar bastante o modelo que até então era seguido. Mais do que postular que cada planeta tinha o seu movimento individual, como antes, o seu modelo permitia compreender que todos os planetas tinham um mesmo movimento circular. Infelizmente, essa possibilidade também implicava vir a dizer que a Terra tinha de perder o seu lugar cimeiro no centro do Universo, algo que a Igreja de então não levou muito bem, condenando injustamente a teoria deste autor...

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Burro de Ouro

Hoje pensávamos cá trazer, finalmente, a tradução do Comentário à Eneida de Sérvio, mas por diversas razões isso terá de ficar para outra altura. Em alternativa, aqui fica algo mais inesperado - há algum tempo foi-nos pedida uma tradução da obra vulgarmente conhecida como O Burro de Ouro, mas esse texto já existe em língua portuguesa, tanto de Portugal (da autoria de Delfim Leão) como do Brasil (da autoria de Ruth Guimarães).

Porém, essa mesma obra teve uma influência significativa na cultura literária ocidental. Entre os textos e poemas inspirados por ela conta-se Apuleio Convertido en Asno, da autoria de Juan de la Cueva (1587). Decidimos então traduzir esse poema para língua portuguesa, e o resultado pode agora ser encontrado aqui.

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Uma Moura Encantada

Esta tese de doutoramento, da autoria de Maria Manuela Neves Casinha Nova e defendida em 2013, tem um duplo interesse para os amantes dos mitos e lendas nacionais. Apesar de se referir somente a produções algarvias, algumas das quais inéditas até então, estuda os seus vectores essenciais num primeiro volume e apresenta os seus relatos mais directamente num segundo.

 

Os dois volumes desta tese podem ser encontrados aqui, e são uma leitura inesperada para todos aqueles que têm interesse nas lendas de Portugal.

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Por vezes é interessante explorar as pesquisas que as pessoas fazem neste espaço. Há alguns dias alguém no Brasil procurou aqui por "exemplos de mitos urbanos"; raramente nos focamos nesse tema, até porque tornaria ainda mais infindável a nossa busca, mas é curioso constatar que até existem estudos que relacionam os mitos urbanos da Antiguidade com os dos nossos dias. Apenas para dar um único exemplo, poderá ser consultado o artigo De Legendis Urbis: Modern Legends in Ancient Rome, de Bill Ellis.

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Cavaleiros e dama

Hoje, trazemos cá dois livros que, nos nossos dias, são muito pouco lidos, apesar de estarem disponíveis online gratuitamente.

 

A Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros, é, como vários livros já cá discutidos anteriormente, um romance de cavalaria. E, nesse contexto, é uma produção pouco digna de nota neste espaço, não fosse o facto do titular Clarimundo ser apresentado como um ascendente, quase certamente ficcional, do Conde Dom Henrique, pai do nosso primeiro rei, Afonso Henriques. Continua, por isso, uma tradição que já vem dos tempos de Virgílio e que fazia descender de figuras ficcionais notáveis algumas personagens famosas da história europeia.

 

Quanto a Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, já foi considerada um dos quatro grandes poemas épicos europeus, como ainda hoje atesta a "Cascata dos Poetas" em Oeiras. Aí, podem ser vistos Homero, Virgílio, Camões e Tasso.

Cascata dos Poetas, em Oeiras

É um épico de finais do século XVI, baseado na história da conquista de Jerusalém durante a Primeira Cruzada. Claro que nos apresenta mais ficção do que realidade, mas muitas das suas sequências não podem deixar de nos relembrar eventos como os dos poemas de Homero e de Virgílio. Além disso, em alguns momentos funde Cristianismo e Paganismo (aqui, quase sempre sob a forma da religião de Maomé), "bom" e "mau", aquela eterna ideia de "nós vs eles", de um modo inesperadamente belo. Fica, por isso, um convite particularmente especial à sua leitura.

 

Sucintamente, ambas estas obras nos apresentam um momento muito particular da reutilização da tradição clássica no século XVI europeu. A forma como o fazem é muito distinta, mas nem por isso menos digna de nota.

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