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O mundo dividido no Tratado de Tordesilhas

Hoje, mais do que mitos e lendas, trazemos cá um pouco de cultura geral. O Tratado de Tordesilhas, como é que provável que os leitores se recordem dos seus tempos de escola, foi uma convenção celebrada entre Portugal e Espanha, segundo a qual os locais por descobrir pelo mundo fora se repartiriam entre os dois países, independentemente de qual dos dois o descobriu.

Mas, visto que foram certamente poucos aqueles que o leram, pensámos que podíamos revelar três pequenas curiosidades sobre o seu conteúdo:

 

Como bem se sabe, a principal divisória foi colocada 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Contudo, o tratado também dá algumas indicações adicionais sobre como deveriam ser traçados esses limites na prática, para que se pudesse apurar se um determinado local iria pertencer a Espanha ou a Portugal;

Também é estabelecido neste tratado uma espécie de período de carência, dizendo o que deveria acontecer aos territórios descobertos antes da sua entrada em vigor.

Mas, finalmente e talvez muito mais interessante, é o facto de nunca se propor uma divisão do globo em duas metades, como se somente Portugal e Espanha fossem merecedores de possuir tudo o que existe. O que é dito, isso sim, é que se um dos dois países encontrar um novo território, esse poderá vir a ser pertença do outro mediante a sua localização. Na prática, é uma espécie de pacto de não-agressão entre os territórios ibéricos, mas sem que seja estipulado o que deverá acontecer a potenciais descobertas feitas por outros países.

 

Se, na prática, a ideia por detrás do Tratado de Tordesilhas nos poderá parecer hoje um tanto absurda, poderá ter sido a melhor forma que os dois países encontraram para gerir aquele que poderia ser um conflito constante. Se, de um ponto de vista literário ou mitológico, este documento não tem muito interesse, o seu valor histórico é completamente inegável.

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Salomão e a Rainha de Sabá

Poucas histórias parecem fascinar tanto a humanidade como a do destino final da Arca da Aliança. A sua redescoberta poderia provar a veracidade dos textos bíblicos, mas pouco se sabe da sua localização após a perda do Primeiro Templo de Jerusalém, o mesmo que foi eregido pelo Rei Salomão. Existem, aqui e ali, uma e outra hipótese, mas a que apresentamos hoje é intrigante.

 

Segundo o Kebra Nagast, um épico etíope que poderá datar do século XIV (o texto diz tratar-se de uma suposta tradução do copta para o árabe para a língua local), quando o Rei Salomão e a Rainha de Sabá se encontraram em Jerusalém - como diz o Antigo Testamento - aconteceu também algo que o texto bíblico não preserva - a rainha, aqui chamada Makeda, engravidou e teve um filho, a que viria a dar o nome de Menelik. Isso aconteceu porque, entre outras razões, Salomão queria engravidar o maior número possível de mulheres, de forma a propagar a crença no deus único (e não estamos a brincar, é mesmo isso que o texto afirma).

Alguns anos depois, Menelik foi a Jerusalém conhecer o pai. Quando voltou à Etiópia trouxe consigo a Arca da Aliança. Não se tratou de um roubo (!), o texto deixa claro que a Arca apenas foi levada por vontade divina, em parte devido à piedade do jovem e em parte porque Salomão andava a transgredir as regras que Deus lhe tinha imposto.

 

Esta poderia tratar-se de uma história lendária como muitas outras, mas a Igreja de Santa Maria de Sião, na cidade etíope de Axum, supostamente ainda tem no seu interior a Arca da Aliança, a mesma que Menelik trouxe do reino de Salomão. Porém, antes que se metam num avião para a re-encontrar, convém frisar que o local não está aberto ao público, nem é possível ver o tão famoso ítem. É possível que Edward Ullendorff a tenha visto durante a Segunda Guerra Mundial e afirmado que é uma cópia sem muito valor, como detalha este artigo, mas pouco mais sabemos sobre ela. É, por isso, uma possibilidade, mas também um beco sem saída.

 

Se existem várias outras histórias apócrifas que unem em laços amorosos a Rainha de Sabá e o Rei Salomão, chegando ao ponto de existirem até livros e filmes sobre o tema, esta parece ser uma das mais antigas referências a um potencial filho de ambos. Mas, se esse é o episódio central e fulcral do Kebra Nagast, esta obra também tem menções a vários outros mitos cristãos, desde a criação do Homem no Paraíso até às muitas sequências do Antigo Testamento que previam a vinda de um Messias (e que o texto descrimina de uma forma inesperadamente directa). Tem alguns momentos puramente belos (como as frases de Salomão sobre a natureza do conhecimento humano), mas, talvez mais que tudo, é notável pela forma como re-escreve e adapta alguns mitos bíblicos a um contexto africano.

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Relativamente à origem da palavra "panfleto", se consultarmos um dicionário ele tende a informar-nos que esta vem do inglês pamphlet. O que nos leva, obrigatoriamente, à questão adicional da origem da palavra no inglês. Na verdade, ela parece vir de um texto medieval chamado Pamphilus de amore, cuja enorme popularidade contribuiu para disseminar a expressão e constituir, de uma forma mais geral, o panfleto como um pequeno texto satírico.

 

Mas de que tratava, afinal, esse Pamphilus de amore? É, naturalmente, um texto satírico, em que um jovem amante procura a afeição da sua amada recorrendo aos serviços de uma sábia idosa. Não sabemos quem o terá escrito, mas a influência das produções poéticas de Ovídio, tão comum num determinado momento da Idade Média, é aqui, sem qualquer dúvida, notável.

O sempre-popular Ovídio

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O combate

A Écloga de Teodulo é um poema latino da Idade Média, curioso pela forma como funde os mitos da Antiguidade com as histórias do Antigo Testamento. É um debate entre duas figuras, a Falsidade e a Verdade, em busca da verdadeira doutrina. Face a esse objectivo, a Falsidade começa por mencionar um qualquer mito, ao que a Verdade depois lhe responde apontando um episódio bíblico com a mesma ligação temática.

 

Vejamos dois pequenos exemplos. Quando a primeira figura refere o mito em que Saturno foi expulso do Olimpo, a segunda responde-lhe com a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A informação de que Cécrope fez o primeiro sacrifício é depois respondida com o de Caim e Abel.

 

São cerca de 350 versos, em que as crenças dos gregos e romanos são combatidas com as dos cristãos. É natural que o Cristianismo acabe por ganhar, mas é um curioso combate de intertextualidades que até dá um certo prazer de leitura.

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Para terminar as celebrações, hoje trazemos cá uma obra pouco conhecida. Quando se pensa em literatura da Idade Média, pensa-se nas aventuras arturianas, num determinado conjunto de poesia amorosa e de criações cristãs e, para alguns, talvez até num derradeiro Dom Quixote de Cervantes. Mas, ao mesmo tempo, também existia um conjunto de criações medievais que já tentava, de certa forma, satirizar os outros conteúdos da época. Se nada sabemos sobre "Garin", suposto autor desta pequena obra (terá ele vivido no século XIII, como pensou um estudioso dos nossos dias?), O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos] é, sem qualquer dúvida, uma dessas obras satíricas, cuja popularidade pode ser apreciada em sete manuscritos. Mas de que fala esta obra, afinal?

 

Apresenta-nos um cavaleiro que já tinha pouco dinheiro e passava fome. Quando o seu escudeiro viu três belas mulheres a tomarem banho, roubou as suas roupas, as quais pretendia vender num mercado próximo. Porém, o amo não o deixou fazer isso, optando por devolver as vestes às três desconhecidas. Depressa se revelaram fadas, e decidiram depois premiar aquele que as ajudou com três dons - a primeira, garantiu-lhe que ele viria a ser sempre bem recebido, onde quer que fosse; a segunda deu-lhe o poder de fazer falar as vaginas; a terceira deu-lhe o poder adicional de que, quando uma vagina não lhe pudesse responder, um rabo o faria.

O cavaleiro, tal como um potencial leitor, não pôde deixar de achar que estas mulheres/fadas só poderiam estar a gozar com ele, mas no desenrolar da aventura - que aqui omitimos, para não estragar a surpresa de potenciais leitores - é provada a completa veracidade das três promessas, levando o herói do seu infortúnio original até uma vida bem mais afortunada.

 

Mais que tudo, este texto goza com algumas das convenções literárias que esperaríamos encontrar em romances de cavalaria, só pecando pelo facto de ser muito curto - depois de ganhar os seus poderes, o cavaleiro apenas passa por duas breves aventuras antes do autor concluir as linhas que nos apresenta. Fora isso, tem até uma certa piada.

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O "Mabinogion"

05.07.19

Exemplo de manuscrito

O Mabinogion é uma colecção de algumas histórias orais bretãs compilada por volta do século XII. São, todas elas, histórias belíssimas de cavalaria e de magia, com alguns momentos completamente imprevisíveis e que certamente agradarão aos amantes da ficção. Porém, o que as torna particularmente relevantes para este espaço é o facto de entre estas histórias se contarem algumas versões antigas de aventuras arturianas, que autores posteriores, como Thomas Malory, potencialmente readaptaram para os seus livros.

 

Para darmos um exemplo concreto, no romance de Perceval, da autoria de Chrétien de Troyes, surge uma famosa sequência em que o herói vê uma espécie de parada num castelo, onde está incluído o Santo Graal. Perceval até sente curiosidade, mas nada pergunta sobre esse evento. Uma sequência semelhante aparece na história de Peredur, sem o Graal, sem o "Roi Pécheur", também sem a pergunta ser feita, e com uma personagem principal ligeiramente diferente. A ligação entre ambas as sequências é notória, seria bastante difícil negá-la, mas não sabemos qual delas surgiu primeiro.

 

Porém, nem tudo é bom nestas histórias. Alguns dos seus traços de oralidade tornam-nas, em determinados momentos, enfadonhas para uma leitura nos nossos dias. Também, parece existir pouca ligação entre as histórias; com excepção da sequência chamada "Quatro Ramos do Mabinogi", não existe uma continuidade notável entre elas. Além disso, estão repletas de elementos mitológicos que se perderam ao longo dos séculos e sobre os quais, infelizmente, hoje temos pouca informação.

Por razões como estas, esta é uma obra que dá prazer ler, mas que também é melhor aproveitada numa edição crítica, com comentários e anotações, para que possa ser compreendida devidamente.

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A história de Floris e Brancaflor parece ter sido uma das mais populares na Idade Média, com os seus amores a serem até imortalizados em várias outras obras. Mas se nessa obra o episódio dos confrontos de xadrez entre Floris e o guarda da torre que aprisiona Brancaflor, representado na imagem acima, até tem uma maior importância, existe uma referência na trama que, para os amantes dos antigos mitos, não poderá deixar de ser mencionada. Quando Brancaflor é vendida por dois mercadores, a sua beleza era tal que eles mereceram incontáveis recompensas em troca, uma das quais um copo de valor incalculável, assim descrito numa das versões do poema:

 

Vulcano tinha feito este copo, e nele tinha representado como Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, tinha raptado Helena, e foi perseguido pelo raivoso Menelau, senhor de Helena, juntamente com o seu irmão Agamémnon, ao comando de um poderoso exército; e como os Gregos cercaram e atacaram a cidade de Tróia, que os Troianos defenderam, e quando a cidade foi tomada Eneias trouxe o copo e deu-o ao irmão da sua amada Lavínia.

 

São diversas as questões que este invulgar copo nos pode suscitar, mas ele é, mais que tudo o resto, uma recordação dos mitos de Tróia em plena Idade Média. É uma invenção completamente medieval, até porque normalmente Eneias escapa da cidade em chamas apenas com o pai ás costas e o filho pela mão, mas não deixa de ser um elemento que, na história deste Floris e da sua Brancaflor, nos remete para conquistas de outros tempos.

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