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O "Mabinogion"

05.07.19

Exemplo de manuscrito

O Mabinogion é uma colecção de algumas histórias orais bretãs compilada por volta do século XII. São, todas elas, histórias belíssimas de cavalaria e de magia, com alguns momentos completamente imprevisíveis e que certamente agradarão aos amantes da ficção. Porém, o que as torna particularmente relevantes para este espaço é o facto de entre estas histórias se contarem algumas versões antigas de aventuras arturianas, que autores posteriores, como Thomas Malory, potencialmente readaptaram para os seus livros.

 

Para darmos um exemplo concreto, no romance de Perceval, da autoria de Chrétien de Troyes, surge uma famosa sequência em que o herói vê uma espécie de parada num castelo, onde está incluído o Santo Graal. Perceval até sente curiosidade, mas nada pergunta sobre esse evento. Uma sequência semelhante aparece na história de Peredur, sem o Graal, sem o "Roi Pécheur", também sem a pergunta ser feita, e com uma personagem principal ligeiramente diferente. A ligação entre ambas as sequências é notória, seria bastante difícil negá-la, mas não sabemos qual delas surgiu primeiro.

 

Porém, nem tudo é bom nestas histórias. Alguns dos seus traços de oralidade tornam-nas, em determinados momentos, enfadonhas para uma leitura nos nossos dias. Também, parece existir pouca ligação entre as histórias; com excepção da sequência chamada "Quatro Ramos do Mabinogi", não existe uma continuidade notável entre elas. Além disso, estão repletas de elementos mitológicos que se perderam ao longo dos séculos e sobre os quais, infelizmente, hoje temos pouca informação.

Por razões como estas, esta é uma obra que dá prazer ler, mas que também é melhor aproveitada numa edição crítica, com comentários e anotações, para que possa ser compreendida devidamente.

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A história de Floris e Brancaflor parece ter sido uma das mais populares na Idade Média, com os seus amores a serem até imortalizados em várias outras obras. Mas se nessa obra o episódio dos confrontos de xadrez entre Floris e o guarda da torre que aprisiona Brancaflor, representado na imagem acima, até tem uma maior importância, existe uma referência na trama que, para os amantes dos antigos mitos, não poderá deixar de ser mencionada. Quando Brancaflor é vendida por dois mercadores, a sua beleza era tal que eles mereceram incontáveis recompensas em troca, uma das quais um copo de valor incalculável, assim descrito numa das versões do poema:

 

Vulcano tinha feito este copo, e nele tinha representado como Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, tinha raptado Helena, e foi perseguido pelo raivoso Menelau, senhor de Helena, juntamente com o seu irmão Agamémnon, ao comando de um poderoso exército; e como os Gregos cercaram e atacaram a cidade de Tróia, que os Troianos defenderam, e quando a cidade foi tomada Eneias trouxe o copo e deu-o ao irmão da sua amada Lavínia.

 

São diversas as questões que este invulgar copo nos pode suscitar, mas ele é, mais que tudo o resto, uma recordação dos mitos de Tróia em plena Idade Média. É uma invenção completamente medieval, até porque normalmente Eneias escapa da cidade em chamas apenas com o pai ás costas e o filho pela mão, mas não deixa de ser um elemento que, na história deste Floris e da sua Brancaflor, nos remete para conquistas de outros tempos.

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Amadis de Gaula foi provavelmente o mais famoso de todos os romances de cavalaria produzidos na Península Ibérica. Resumi-lo num punhado de frases soar-nos-ia redutor, mas podemos referir que se trata da história da belíssima Oriana e das muitas aventuras pelas quais Amadis passou em sua honra. E é, de facto, sobre uma dessas aventuras em que hoje nos focamos. Num dado momento Amadis foi capturado por Briolanja, que o amava e que dele desejava ter um filho. Mas será que o herói cedeu às tentações da carne, gerando um rebento com ela?

 

A sua amada Oriana pensou que sim, mas o texto do romance não deixa essa informação totalmente clara. Pelo menos uma das edições a que tivemos acesso parece dar a entender que, originalmente, nada de errado se tinha passado entre as duas personagens, mas também acrescenta que o episódio em questão foi alterado por ordem do "Infante Dom Afonso de Portugal" (i.e. o filho de Dom Dinis), de forma a dar uma prole compassiva à solitária Briolanja.

Isto é possível de se fazer porque, quase certamente (que nestas coisas nunca podemos ter uma certeza absoluta), Amadis, Oriana e Briolanja se tratavam de personagens ficcionais. Nunca tiveram uma existência fora do campo da ficção, e como tal podem ter as suas existências alteradas como melhor se encaixar na trama. Se um dado lhes quisesse, por exemplo, dar 20 filhos e encenar uma batalha de todos eles contra o próprio pai, nada o impediria de o fazer.

 

Voltemos então à Antiguidade, a uma figura como Ulisses. Será que teve filhos de Circe e de Calipso? Por muito que os Poemas Homéricos nos possam levar a uma resposta em particular, absolutamente nada impediria autores posteriores de alterar a história, para que esta se inserisse melhor nos seus objectivos individuais. Desde que respeitassem algumas regras - por exemplo, a virgindade perpétua de Ártemis ou de Atena não deveria ser violada, e seria estranha a existência de um Zeus totalmente fiel à esposa - podiam fazer tudo o que desejassem com as personagens que tinham em mãos. Assim se compreendem as divergências de informação que se encontram em determinadas fontes; uma figura como Príamo podia ter tantos filhos e filhas como necessário para a história. E, nesse sentido, não existe uma resposta certa ou errada ao número e identidade de uma descendência - Amadis, como Ulisses, Édipo, ou qualquer outra figura ficcional, podem ter (e até deixar de ter) filhos e filhas, em número tão grande e diverso como a trama requeira. E, mesmo assim, Oriana e Penélope, como tantas outras heroínas, só seriam traídas se os autores assim o desejassem. Bastaria torná-lo real com palavras ditas ou escritas.

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A Utopia de Thomas More

A Utopia, de Thomas More, é a história (ficcional) de um filósofo-navegador português, de nome Rafael Hitlodeu, que numa dada altura das suas viagens se encontrou na terra de Utopia, um estado ideal que pouco fica a dever à República de Platão. Porém, a descrição desse Estado - que é o elemento mais famoso da obra - só aparece no segundo livro. O que contém o primeiro? Essencialmente, uma discussão crítica de diversos aspectos culturais do tempo de Thomas More, que depois serve de introdução à possível alternativa vigente nas terras de Utopia.

 

Se, por um lado, uma leitura puramente lúdica desta obra é um pouco enfadonha, por outro uma discussão das ideias apresentadas nesta Utopia poderá ser muito prolífica, na medida que a obra oferece um enorme número de ideias (ou, se assim preferirmos, quase sugestões) que ainda merecem ser discutidas nos nossos dias de hoje. Infelizmente, poucos parecem ter sido os nossos políticos que a leram; quão diferente - e quão melhor - seria o nosso mundo se esta utopia sugerida por More já tivesse sido tornada realidade!

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Cisnes e o amor

As mulheres desejam as proezas dos homens jovens e aceitam o mérito em vez de uma boa aparência. O amor tem mil e uma entradas: para alguns, uma bela figura abre o portão ao prazer, para outros um coração valente, enquanto que certos outros o devem à sua proficiência nas artes; para um menor número a cortesia oferece uma oportunidade ao amor, enquanto que muitos se tornam elegíveis pelo esplendor da sua reputação, e a coragem pode até ferir os corações das mulheres de uma forma tão profunda como a graciosidade.

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livro

Associamos estes dois livros pelo facto de, essencialmente, se tratarem de um só, em que quase só mudam os nomes dos seus intervenientes. E, nesse seguimento, são obras relativamente simples, em que uma das personagens coloca algumas questões àquela que lhe é superior. Vejamos três exemplos particularmente curiosos:

 

  • Quais são as quatro coisas que jamais estarão satisfeitas?

A terra, o fogo, o inferno e um homem que deseja as riquezas do mundo.

  • Qual foi o homem que morreu mas não nasceu, e depois da morte foi sepultado no ventre de sua mãe?

Foi Adão, o primeiro homem, porque a terra foi a sua mãe, e depois da morte foi aí sepultado.

  • Como é que Cristo nasceu da sua mãe, Maria?

Pelo seio direito.

 

Além destes pequenos exemplos, existem nestas obras alguns elementos que não deixam de ser curiosos. Numa dada altura é referido, indirectamente, que o fruto da famosa árvore do Paraíso era o figo. Porquê este, e não a maçã? A resposta é fácil de compreender se  recordarmos que no Evangelho Segundo São Marcos Jesus amaldiçoou uma figueira. De facto, é essa mecânica de ideias que pauta o conteúdo da obra - é feita uma questão e depois é apresentada uma resposta que, em muitos casos (mas nem sempre!), pode ser subentendida do texto bíblico ou de alguns elementos da cultura cristã medieval. E, nesse sentido, se não é uma obra muito interessante para um leitor leigo, aqueles que tenham interesse na evolução das crenças cristãs poderão aqui encontrar muito material que lhes dará que pensar.

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Niobe e Anfion

Nesta obra, Boccaccio apresenta-nos breves biografias de 106 mulheres, contando-se entre elas um grande número de figuras mitológicas - Ceres e Minerva, Isis, Europa, Medeia, Jocasta, ou Helena de Tróia, entre muitas, muitas outras. Mas, com a excepção notável de Eva, figuras mais ligadas ao Cristianismo estão totalmente ausentes da obra, como também o estão de outra obra do mesmo autor, Sobre os Destinos dos Homens Famosos.

 

Mas, mais do que uma obra de carácter biográfico, este é um texto com uma intenção moralizante, já que pelo exemplo de todas essas mulheres o autor pretende demonstrar um conjunto de características que já não encontrava no sexo feminino dos seus dias. Para mencionar um único caso, numa dada biografia é exaltada a eterna fidelidade de uma determinada heroína, antes de serem criticados os múltiplos casamentos das mulheres do seu tempo.

 

Finalmente, uma referência inesperada - a Papisa Joana é uma das mulheres cuja biografia aparece constante nesta obra, sendo ela tratada como uma figura totalmente real. Será que o foi? Essa é uma questão que, como antes, preferimos deixar para os leitores.

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