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Um exemplo de papiro mágico egípcio

Na nossa cultura ocidental, eminentemente cristã, existe um certo tabu em relação ao acesso a um conjunto de conhecimentos supostamente místicos. Mas, ao mesmo tempo, certamente que vários leitores também têm curiosidade sobre o conteúdo de rituais como esses. Nesse sentido, o que hoje trazemos aqui é uma tradução de um ritual provindo de papiros mágicos gregos, que presumimos que ainda não exista em língua portuguesa e acessível ao público em geral. Aqui está descrita a fórmula basilar do ritual, mas onde está escrito "NOME" deveriam, naturalmente, ser adicionados os nomes das pessoas em questão.

 

Feitiço de atracção enquanto a mirra está a ser queimada. Enquanto a mirra está a ser queimada no carvão, recite a seguinte fórmula:

Tu és a Mirra, amarga, difícil. Reconcilias aqueles que lutam um contra o outro; és queimada e forças aqueles que não aceitam Eros a se apaixonarem. Todos te chamam Esmirna, mas eu chamo-te comedora de carne e queimadora do coração. Não te estou a enviar para a distante Arábia; não te estou a enviar para a Babilónia; mas estou a enviar-te para NOME, cuja mãe é NOME,  para me ajudares com ela, para a trazeres até mim. Se ela estiver sentada, não a deixes sentar-se; se estiver a falar com alguém, não a deixes falar; se estiver a olhar para alguém, não a deixes olhar; se estiver a ir ter com alguém, não a deixes ir; se estiver a passear, não a deixes passear; se estiver a beber, não a deixes beber; se estiver a comer, não a deixes comer; se estiver a beijar alguém, não a deixes beijar; se estiver a fazer algo que lhe dê prazer, não a deixes tê-lo; se estiver a dormir, não a deixes dormir. Deixa-a pensar somente em mim, NOME; deixa-a desejar-me somente a mim; deixa-a amar-me somente a mim, e deixa-a fazer todos os meus desejos. Não entres pelos seus olhos, nem pelos seus lados, nem pelas suas unhas, nem pelo seu umbigo, nem pelos seus membros, mas pela sua alma, e estabelece-te no seu coração e queima as suas entranhas, o seu peito, o seu fígado, a sua respiração, os seus ossos, a sua essência, até que ela venha até mim, NOME, amando-me e fazendo todos os meus desejos. Porque eu te conjuro, Esmirna, pelos teus nomes "anocho abrasax tro" e pelos ainda mais convincentes e potentes "kormeioth iao sabaoth adonaipara" para seguires as minhas ordens, Esmirna. Enquanto te queimo e enquanto fores poderosa, deves queimar o cérebro da mulher que eu amo, NOME. Incendeia as suas entranhas e arranca-as, derrama o seu sangue, gota por gota, até que ela venha até mim, NOME, cuja mãe é NOME.

 

Páginas e páginas poderiam ser escritas em relação a este ritual, mas cingimo-nos aos elementos mais básicos - trata-se de um ritual de amor, em que o seu autor procurava causar a paixão amorosa de uma determinada mulher. Para tal, é invocada uma divindade, cuja influência sobrenatural é procurada por quem realiza todo o processo. Perto do final, estão até aqui presentes as chamadas "vozes mágicas", um conjunto de nomes e expressões sem tradução real e que, supostamente, eram segredos muito bem guardados, até porque sem eles a invocação nunca poderia funcionar.

 

Rituais como estes assentam sempre numa fórmula de duas partes, composta por algo que tem de ser feito (aqui, a queima da mirra) e por algo deve ser dito (a fórmula acima), pelo que os elementos aqui constantes ocorrem em muitos outros rituais, independentemente das mais diversas funções que pretendiam ter. Portanto, este é um digno representante dos feitiços criados na Antiguidade, e que esperamos que resolva essa curiosidade de muitos leitores em relação aos processos mágicos de outros tempos.

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